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Renda Fixa ou Ações: Você tem certeza que sabe qual rende mais?

Estamos em uma série de 3 textos para explicar o porquê de o brasileiro ter medo de comprar ações e porque você deve superar esses obstáculos para fazer seus investimentos renderem mais.

No primeiro artigo, mostramos que o pequeno investidor entra na Bolsa de Valores sem qualquer controle de seus investimentos e compartilhamos uma planilha para ajudar você a apurar seu imposto de renda e ter estatísticas básicas de seus ganhos. Se você ainda não baixou a planilha e leu o material, aproveite e faça-o agora.

Nesse artigo abordaremos a questão da rentabilidade. Afinal, vale a pena investir em ações, ou melhor permanecer na renda fixa? A pergunta é simples, mas a resposta tem vários meandros. Vamos começar logo com o resumo da resposta:

Vale a pena investir na Bolsa de Valores?

Se você acha que a Bolsa É o Ibovespa Se você acha que a Bolsa NÃO É o Ibovespa
Então olha o histórico de curto prazo, e não vale a pena. Se você pensa no curto prazo, o risco não vale a pena.
Olha o de longo prazo e pondera pelo risco, também não. Se você pensa no longo prazo, enfim, vale.

Embora muita gente diga que você tem que investir na Bolsa (principalmente se quem está dizendo quer parte do seu dinheiro), creio que isso não é verdade em vários casos, principalmente se você for investir no curto prazo e se não estiver disposto a escolher ações específicas.

A importância do tempo para colher os frutos

Se você pretende investir para o curto prazo, devido à alta volatilidade do mercado de ações, a resposta é muito simples: não invista de jeito nenhum. O mercado de ações é destino somente daquele dinheiro que você não necessitará nos próximos 10 anos.

O motivo é simples, a Bolsa pode cair justo nos primeiros um, dois ou mesmo quatro anos do seu investimento e você ter que resgatar seu dinheiro logo antes do período de recuperação do mercado. É o famoso comprar na alta e vender na baixa, uma forma garantida de dilapidar seu patrimônio que ocorre com quem está despreparado para o mercado (e se apavora nas quedas), ou tem a necessidade imediata do dinheiro e não pode esperar.

Comparativo detalhado Ibovespa versus Selic

Você percebeu que eu disse “não é interessante investir em Ações se você acha que Bolsa é sinônimo de Ibovespa”. Explico.

Os educadores financeiros americanos são quase unânimes em sugerir ao pequeno investidor simplesmente adquirir ETF (fundos de índices de ações). Isso diversifica sua carteira, exime sua responsabilidade de escolher boas ações e rende muito mais que a renda fixa (de lá). Eles estão certos? Certíssimos!

Se a renda fixa brasileira pagasse o mesmo que a renda fixa americana, eu sugeriria o mesmo: “apenas compre ETF do Ibovespa, é o método mais simples e você terá um rendimento muito superior à inflação”.

Porém…

Ao adquirir ETF no Brasil, facilmente você perde da renda fixa. A menos que invista na Bolsa naquelas janelas curtíssimas de 2 ou 3 anos de recuperação, logo após uma grande queda. Seu timing teria que ser apuradíssimo, melhor que o de todos os outros investidores. Ou seja, melhor não.

Você deve conhecer nosso famoso gráfico comparativo entre Selic e Ibovespa na era do Plano Real, mostrando vitória, você sabe de quem:

renda fixa e bolsa de valores

É verdade que os juros foram altíssimos logo no início (taxas improváveis de vermos outra vez), para que o Real desse certo, o que dá uma vantagem inicial importante à Selic. Mas não podemos esquecer que a queda da Selic ao longo do prazo deveria ter elevado o valor das ações, diminuindo esse efeito a favor da Selic.

Então, para retirar o efeito “Plano Real” da história, recentemente, fui mais a fundo e elaborei um gráfico pré-Plano Real, de 1986 até 1994 (o gráfico está em escala logarítmica, por causa da enorme inflação no período).

Veja que, se não fosse o primeiro ano do gráfico, o Ibovespa até acompanharia a Selic páreo a páreo:

Retorno idêntico é insuficiente para optar por Ações

Ocorre que não basta igualar à Renda Fixa, o investimento em Ações tem que render mais. É o chamado Prêmio de Risco.

Afinal, se for para render o mesmo, melhor investir sem risco, diria Markowitz.

Então, como resolver esse impasse? Investindo somente em Renda Fixa?

Se a resposta não está na ponta de sua língua, é porque você ainda está pensando a Bolsa de Valores como sinônimo de Ibovespa. Agora nós teremos que mudar um pouco sua mentalidade.

simulador de investimentos

Como investir na Bolsa de Valores de forma lucrativa

Se há almoço grátis nos EUA (investir em ETF), infelizmente não há almoço grátis no Brasil.

Ao investir em ETF no Brasil, além de tudo, você ainda perde incentivos fiscais destinados o pequeno investidor da Bolsa, abrindo mão de quase 15% de seus rendimentos.

Desse jeito, a chance de ganhar a competição com a Renda Fixa se torna ainda menor.

Para ganhar da renda fixa no Brasil, você precisará usar de todas as armas. Ao adquirir um ETF, você está abrindo mão de vários recursos que serão imprescindíveis nessa batalha.

Já mostramos várias desvantagens do ETF do Ibovespa nesse artigo sobre como comprar ações. Além da questão tributária, há o investimento obrigatório em empresas que simplesmente não dão lucro e o excesso de peso no índice de setores extremamente cíclicos.

Isso quer dizer que:

A má notícia: Infelizmente, você terá que realizar escolhas de bons ativos para ser bem sucedido investindo em ações.
A boa notícia: Não há qualquer dificuldade em escolher bons ativos e bater o Ibovespa.

Por favor, seja realista

Engana-se quem pensa que Bolsa se resume ao Ibovespa e, exatamente da mesma forma, engana-se quem acredita que investirá todo seu dinheiro na ação da “Ambev da próxima década”, ou seja, acertará exatamente qual Ação crescerá cerca de 10 vezes nos próximos 10 anos, em uma taxa composta de 26% ao ano.

cagr ambev
Se alguém prometer lhe ensinar a detectar a Ação que se comportará assim na próxima década, desconfie de um ‘deficit de honestidade’ dessa pessoa.

Os segredos para bater o Ibovespa

Existem várias técnicas comprovadas para bater o índice geral da Bolsa brasileira.

Há vários estudos de gente renomada reproduzindo as técnicas mais conhecidas de seleção de ativos.

O próprio Damodaran testou algumas técnicas nos EUA com bons resultados em seu livro Investment Fables (que já lemos na íntegra e indicamos). No Brasil, também, há diversos backtests de longo prazo demonstrando a solidez de algumas estratégias de seleção de ações.

Não há espaço nesse artigo (que já passa das mil palavras), para descrever estratégias, então sejamos bastante genéricos:

  • A seleção de ações que compõem o Ibovespa se dá por critérios como capitalização de mercado e volume de negociações;
  • Isso força a inserção no índice de frutos podres – empresas com prejuízos há vários anos (ou que nunca deram lucro, como as famosas empresas X) com histórico péssimo de governança e desprestígio de minoritários;
  • Além disso, o índice representa todos os setores da economia, inclusive aqueles com perspectivas não muito boas para os próximos anos. E pior, certos setores possuem uma representatividade maior no índice, por possuírem maior número de empresas de capital aberto (os setores industrial e de materiais básicos são exemplos de elevada representativade no índice, dado o número e tamanho das empresas).

Todos esses fatores contribuem para que o índice não reflita, no meu modo de entender, de maneira adequada as possibilidades de investimento para o pequeno investidor. Ele representa, sim, para o grande, já que esse possui um montante descomunal de recursos e é obrigado a distribuir entre aquelas ações mais líquidas.

Para o pequeno, seria mais adequado um índice com representatividade igual de cada setor: de consumo discricionário, elétrico, financeiro, saúde e imobiliário, ao lado dos setores de petróleo, materiais básicos e industrial.

O que quero dizer com isso?

Quero dizer que alguns setores (e há estudos científicos demonstrando que alguns setores são mais estáveis que outros, em vários sentidos) renderam muito mais que o Ibovespa na última década. Sem ser necessário adivinhar em qual ação específica investir.

Na próxima década, esses, ou outros setores, poderão ser mais rentáveis que o índice geral. Mas, olhando somente o Ibovespa como um todo, você não é capaz de perceber essas diferenças, ou investir de maneira mais estratégica.

Veja esse comparativo da última década entre 3 setores específicos dentro da Bolsa de Valores e o Ibovespa em si. Os setores que apresentamos são:

  • ICON – Índice das ações do setor de consumo discricionário;
  • IFNC – Índice de ações do setor financeiro;
  • IEE – Índice de ações do setor elétrico.

comparativo-setorial

A verdade é que quem investiu nesses setores específicos nos últimos dez anos, não apenas ganhou fácil do Ibovespa, como pôde competir com a Renda Fixa, buscando até um prêmio pelo risco que se correu. E esse é o nosso objetivo.

Conclusão

A conclusão é que é possível, sem rocket science (ou seja, sem algo extremamente complicado), ganhar do índice geral da Bolsa, buscando a renda fixa mais um prêmio pelo risco.

Mas, para isso, você precisa fazer seu dever de casa, pois não há piloto automático, como adquirir um ETF do índice geral e “se sentar”.

No próximo artigo dessa série, veremos que investir na Bolsa de Valores não deve ser encarado como realizar apostas. Aguarde.

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Eduardinho é Auditor da Receita Federal e educador na área de Finanças Pessoais. Criador do método Carteira Rica de enriquecimento, o autor compartilha suas dicas neste blog e vai ajudar você a transformar o modo como lidar com seus investimentos.