aposentadoria

Como Evitar uma Aposentadoria com Sensação de Vazio

A aposentadoria pode ser o melhor benefício do mundo para sua saúde e para seu estilo de vida, ou também a maior decepção, colocando em marcha um processo de degradação física e psicológica.

O que diferencia uma situação da outra? Como me preparar para obter o máximo da aposentadoria?

Bom, falar sobre o tema aposentadoria pode parecer meio “fora de hora”, já que eu e você provavelmente nunca nos aposentaremos – pelo menos oficialmente, só se o fizermos por conta própria – mas esse artigo ainda é vital, não somente para quem realmente vai “chegar lá”, mas também por quem se engajar em um projeto de aposentadoria antecipada.


Uma pesquisa sobre as finanças dos americanos

Recentemente, analisei os resultados de uma pesquisa online com mais de 5 mil internautas americanos sobre condições financeiras.

Os dados tabeláveis, que representam a maior parte da pesquisa, não são de grande interesse, pois se referem a algo bem peculiar daquele povo (questões sobre hipotecas, custo de vida, etc.).

Eu só gostaria de pontuar, com relação à alocação dos ativos, que os jovens possuem cerca de 70% alocados em ações e 25% em dinheiro e títulos de dívida. Já os idosos possuem cerca de 50% em ações e 50% em dinheiro e títulos de dívida.

Isso reforça duas coisas que eu já sabia:

  1. O mercado acionário é realmente visto pelo americano como uma poupança para a aposentadoria (o que é bem diferente da visão do brasileiro comum);
  2. O brasileiro dizer que “o Tesouro Direto não está mais valendo a pena” pois as taxas caíram para inflação mais pouco acima de 5% (ouvi isso de um parente!) é algo completamente sem noção.

O brasileiro está “mimado” com a renda fixa poupuda que tem, deveria dar Graças a Deus (como investidor, mas chorar como cidadão) e terá que aprender de verdade a investir quando as taxas caírem a um patamar decente em algum momento no futuro.

investidor mimado
Nós, brasileiros, investindo na renda fixa e no Tesouro Direto

A tão sonhada Aposentadoria

Mas o que realmente me chamou a atenção na pesquisa foram as respostas escritas daquele grupo de pessoas que já se encontravam na aposentadoria.

As quatro questões abertas a que responderam foram:

  • Em quê a aposentadoria o surpreendeu?
  • Quais as visões equivocadas as pessoas têm sobre os aposentados?
  • Quais suas dicas para os jovens?
  • Quais os piores erros dos jovens na busca pela independência financeira?

E as respostas chamam a atenção por seu conteúdo universal (pela conexão com os problemas que os brasileiros também enfrentam) e pelo tanto de aprendizado que delas podemos extrair se fizermos uma leitura refletida.

Em quê a aposentadoria o surpreendeu?

Nesse item, é surpreendente constatar que as respostas se dividem, praticamente meio a meio, entre aquelas pessoas que estão se dando extremamente bem com a situação e aquelas que estão extremamente desconfortáveis.

Resumindo: ou a pessoa se aposentou e “agora dorme bem e está bem melhor física e mentalmente“, “preenche o dia com as atividades que quer” e “procura um sentido para a vida” agora que “as distrações se foram” (grupo 1).

Ou “nada se alterou“, a pessoa continua “trabalhando como sempre“, “ansiosa“, “preocupada em ganhar dinheiro” ou incomodada por “passar da condição de poupador para gastador” (grupo 2).

Você deve estar pensando: “Meu Deus, como garantir minha vaga no grupo 1“?

Então vamos pensar bem nos possíveis caminhos que levaram as pessoas a terminar a vida no grupo 2:

  • Incomodado por passar de poupador para gastador

Pelo menos você realizou a transição. Pior é aquele que diz “continuo trabalhando como antes” e não consegue largar um emprego que, em regra, não traz realização pessoal nenhuma.

Veja bem, não há nenhum mal em trabalhar. O mal está em trabalhar com algo que não lhe traga satisfação. O teste é simples: de manhã, você sai com grande motivação para o trabalho, por conta dos desafios que tem para solucionar? Se sim, você provavelmente trabalha em estado de flow e pode continuar trabalhando tranquilamente após a aposentadoria.

Trabalhando em estado de flow, a pessoa não vê o tempo passar. Quando chega o fim do dia, ela se pergunta: “Mas já? Ah, não tem problema, termino isso amanhã!”

Porém, se o seu trabalho é desgastante ou lhe traz a sensação de vazio e (podendo financeiramente) você não consegue largá-lo, é porque você está sofrendo de falta de propósito de vida.

Busque o seu propósito (não vamos nos alongar aqui nos métodos para isso. Aceitamos contribuições dos leitores nos comentários: como buscar um propósito para sua vida? Respostas seculares envolvendo ajuda ao próximo são bem-vindas, respostas envolvendo religião, nem tanto, pois podem criar conflitos entre os leitores, já que cada um tem sua fé, ok?).

Esse artigo aponta que os aposentados que trabalham como voluntários sofrem menos de depressão (mal que já afeta 20% da população mundial). Mas não é ingressar no trabalho voluntário “por obrigação”, você tem que procurar algo que lhe desperte paixão. Se você fizer isso antes mesmo de aposentar, então, menores ainda serão suas chances de sofrer com o evento da aposentadoria.

Então, voltando ao problema, a pessoa conseguiu passar de poupador a gastador, mas se sente incomodada por isso.

Isso se deve a um problema que já mencionamos aqui no blog: a postergação infinita da fruição da poupança.

Como já dissemos, o ser humano é um ser inteligente. Ele tem a capacidade de, diante de um obstáculo, dar um passo atrás para tomar mais impulso e conseguir saltar o obstáculo.

inteligência financeira

Poupar é exercer essa inteligência. Você abre mão de um bem no presente (sacrifício imediato), em prol de um benefício maior no futuro.

Qual o grande problema da geração pós-guerra? As pessoas aprenderam a dar um passo atrás, depois outro, depois outro e, no fim, passaram a nem enxergar mais o obstáculo que pretendiam saltar. E então, passam o resto da vida dando passos para trás “porque se habituaram a isso”.

Poupar sem objetivos específicos e alcançáveis e sem prazo determinado pode levar a essa consequência.

Por outro lado, se você tem um objetivo de alcançar 1 milhão de reais em 15 anos, você já está em um caminho melhor.

Ocorre que 1 milhão ainda é abstrato, não acha? Já que não há muitos bens que você precise de 1 milhão para adquirir (só se seu objetivo for adquirir um imóvel, então estipule esse imóvel como objetivo, e não, 1 milhão). Então, para nosso objetivo ficar ainda mais concreto que 1 milhão de poupança, podemos colocar 10 mil reais de renda mensal com juros das aplicações.

Veja como 10 mil/mês é algo muito mais concreto que 1 milhão poupado. Não concorda?

Dez mil por mês eu posso “pegar”, um milhão, não.

lazer

E o que fazer com esses objetivos concretos que eu vou estipulando e alcançando ao longo da minha vida produtiva?

Então, não basta estipular um objetivo concreto, você precisa ter recompensas concretas também.

Falaremos de consumo já, já, mas é importante que você possa “capturar” benefícios com a poupança que está acumulando, desde que esses benefícios não prejudiquem a expansão da sua poupança e da sua capacidade de poupar.

Se você nunca fez uma viagem ao exterior, por exemplo, você pode se permitir realizar uma quando alcançar determinado valor em poupança (lembre-se aqui que sempre usamos a palavra poupança no sentido econômico, não no sentido de caderneta de poupança, não jogue seu dinheiro fora assim!).

Ao se acostumar com benefícios, e não apenas com sacrifícios, ao longo da vida, você terá menos chances de ter esse incômodo na aposentadoria, se passar de poupador a gastador.

  • Meu sacrifício não teve significado

Mais um motivo para você não passar uma vida inteira de privações. Aprenda essa ideia: “você tem que buscar uma vida boa no percurso, e não no ponto de chegada“.

A educação financeira tradicional manda você elaborar um plano em que tudo será ruim até um dia muito específico no futuro em que você se tornará rico e feliz. Quando a pessoa faz uma simulação de poupança e vê aquela curva dos juros compostos, ela tende a pensar dessa forma. É muito tentador.

Você tem um ponto de partida e um ponto de chegada.

Porém, como mencionamos acima, a prática tem demonstrado que essa distância temporal muito grande entre o ponto de partida e, trinta anos depois, o ponto de chegada, tem deixado as pessoas tão tristes e sofridas no meio do percurso que, ao chegarem no “ponto de chegada”, não são mais capazes de experimentar a alegria que desejavam.

Então, o segredo seria estipular esses checkpoints curtos ao longo do caminho (a cada 3 ou 5 anos, por exemplo), com recompensas, para tornar o caminho mais agradável.

E se você for capaz de selecionar investimentos com desempenho mais elevado, você não apenas não perderá dinheiro com a criação desses checkpoints, como poderá até mesmo alcançar um montante superior, no mesmo prazo.

antes-e-depois

O meu conselho seria, portanto, permitir-se essas recompensas se você estiver cumprindo sua meta de poupança e se estiver obtendo rendimentos elevados. Assim, você poderia, por exemplo, fazer uma viagem para a Austrália, por Provence, ou pelo Caribe com a consciência tranquila:

“Computados os gastos dessa viagem, ainda assim meu dinheiro rendeu mais do que teria rendido se eu não tivesse viajado e tivesse investido no fundo tal ou na previdência privada do meu banco”.

Não é bom pensar assim? Quem sabe investir no Tesouro Direto com eficiência, por exemplo, pode se dar esses luxos de vez em quando. Se eu fosse você, não deixaria para aprender sobre o assunto após a aposentadoria, mas agora.

  • Continuo ansioso

Triste constatação. A ansiedade, assim como a depressão, é uma doença da modernidade.

No tempo em que as pessoas estavam mais conectadas com a própria vida (menos celulares, televisão e internet), com o local onde viviam e com o próprio trabalho (o trabalho era mais físico), não eram ansiosas.

Em outras palavras, a vida era muito concreta. Hoje, tudo é muito abstrato, o que gera incertezas, angústias, pressões desmesuradas da sociedade e de nós mesmos – com objetivos profissionais cada vez mais exigentes.

Então, a ansiedade NÃO é um problema relacionado à aposentadoria, mas um problema que você não combateu ou até alimentou ao longo da vida e que dificilmente vai se resolver simplesmente com o ato de se aposentar. Existem exceções? Existem. Quando a ansiedade tem uma causa externa, como ambiente de trabalho ruim, e não, interna e dos hábitos de vida.

Solução: procure ajuda agora! Não espere a aposentadoria se você, hoje, já se considera uma pessoa ansiosa (mais que as outras ao redor).

Mas como poupar pesado sem passar necessidade?

Após a reforma da previdência, poupar “pesado” passa a ser vital. Para a família típica brasileira, acostumada a poupar 10% da renda, aconselho que o novo padrão seja de, pelo menos, 20% (se você consegue mais que isso, mas não se gabe, concentre-se!).

A questão que fica é: “Como poupar esse percentual sem abrir mão dos gastos que me trazem prazer?”

  1. Uma das respostas nós já demos, que é buscar maior rentabilidade nos investimentos (sem necessariamente correr maiores riscos). Isso vai lhe permitir adiantar os seus resultados.
  2. Outro meio é ganhar mais dinheiro, talvez criando uma renda extra. Veja aqui algumas ideias para ganhar dinheiro.
  3. O terceiro meio que você tem para isso – e todos devem ser aplicados em conjunto, para que você tenha o máximo de resultado – não tem jeito, é cortar gastos.

Cortar gastos sempre parece algo doloroso, mas não é. Ocorre que passamos a viver em condições tão superiores às de 20 anos atrás, por exemplo, que simplesmente nos tornamos mimados em uma maneira que parece irreversível. É como o sujeito da foto no início desse artigo (o investidor brasileiro em renda fixa).

Você não tinha televisão por assinatura e não tinha a necessidade. Você não tinha metade dos eletrodomésticos que tem hoje, sua família não tinha 5 aparelhos celulares no somatório, nem quatro ou cinco carros na garagem (pais e um para cada filho). Você tomava refrigerante nas festas e em alguns finais de semana, hoje você toma todos os dias (aqueles que tomam, eu, graças a Deus estou livre dessa droga há quase dez anos).

Anuidade de cartão de crédito, bebidas, condomínio caro (por ter porteiro 24 horas – sendo que pode haver condomínios com razoável segurança sem porteiro na sua cidade – tenho um amigo que paga R$ 1.500,00 de condomínio, ou seja, ele mora em um apartamento próprio e é como se pagasse aluguel), festas infantis suntuosas e encontros com amigos apenas em restaurantes e bares caros.

Focando bastante nesses últimos dois itens: As pessoas não perceberam como a ostentação se tornou algo não apenas moralmente aceitável, mas, muito pior, um padrão comportamental geral.

Engana-se quem pensa que ostentação é o padrão comportamental somente do favelado que ouve funk e usa camisa de R$ 300, colar de ouro, iphone e tênis caro. Não é.

Cada vez mais incorporamos hábitos ostentatórios, de maneira desapercebida, em nosso cotidiano.

As festas infantis eram organizadas em casa, com a participação dos familiares e todos eram felizes.

Os encontros entre amigos também eram, muitas vezes, na casa de algum deles, com um jantar preparado em conjunto (às vezes, cada um levava algo para contribuir). As pessoas eram felizes e havia união.

Hoje, as pessoas se encontram em bares e restaurantes caros o suficiente para demonstrar a todos o quão bem sucedidos os frequentadores são e, em vez de conversar, todos ficam em seus celulares trocando Whatsapp com pessoas com que não dialogariam, se ali estivessem (nesse caso, estariam teclando com outras).

Parece não ter a ver com aposentadoria, mas tem. Uma reprogramação de hábitos de consumo que valorize o consumo consciente, se bem feita, pode não apenas liberar renda para poupança, mas até mesmo trazer mais alegria no presente.

Por esse motivo, enquanto você não realizar uma reprogramação desse tipo, eu acharei que é puro mimimi a sua atitude de vincular poupança radical a baixa qualidade de vida. Ok?

Resumindo: poupe mais e com sabedoria, invista melhor e viva bem todo o caminho. Não deixe para aproveitar a vida naquele “ponto de chegada” de seu planejamento financeiro abstratamente elaborado. Um abraço!

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Eduardinho é Auditor da Receita Federal e educador na área de Finanças Pessoais. Criador do método Carteira Rica de enriquecimento, o autor compartilha suas dicas neste blog e vai ajudar você a transformar o modo como lidar com seus investimentos.