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Bolsa de Valores não é Casino. Quer apostar?

Muitos investidores já fixaram a ideia de que a Bolsa de Valores é um Casino, usado pelos mais espertos para retirar dinheiro dos mais tolos.

Essa ideia não está errada, nem certa: tudo depende somente de você.

Nesse terceiro artigo de nossa série, nós veremos que se você enxergar a Bolsa como um Casino, ela será um e suas chances de perder são gigantescas. Porém, se você entender a Bolsa como um ambiente de negócios sério, essa simples mudança de perspectiva poderá salvá-lo de ser “a próxima vítima”.


1- Ações são ativos que se valorizam

Em primeiro lugar, devemos ter a noção de que Ações são ativos que se valorizam, a menos que algo dê errado.

Afinal, as empresas estão funcionando, as pessoas estão trabalhando e gerando riquezas e a tendência natural é um aumento de valor dos negócios, salvo vez ou outra nas crises.

Tanto é assim que, se por um lado o Ibovespa (que já frisamos não representa o mercado de ações do ponto de vista do pequeno investidor) tem perdido da Selic na era do Plano Real, pelo menos tem ganhado da inflação.

Assim, o investidor medíocre, no longo prazo conseguiria uma valorização daquilo que poupou, mesmo após a atualização da moeda:

ibovespa deflacionado

Então, “perder” dinheiro, o investidor de longo prazo não perdeu. Pode ter apenas deixado de ganhar o custo de oportunidade, se tivesse investido em outras coisas, como em renda fixa (e, nesse período extenso, também em imóveis). Isso tudo, como dissemos, se for um investidor mediano, aquele investidor “estilo ETF do Ibovespa”.

As pessoas têm que colocar na cabeça que ao comprar ações, estão adquirindo participações em empresas. Nada mais, nada menos que isso. E empreender para suprir uma necessidade do mercado realmente é uma aventura, mas não necessariamente negativa, muito menos com caráter de jogo.

2- Ações renderem mais que Renda Fixa é um pressuposto do mercado

Se não houvesse a expectativa, pelo mercado, de Ações renderem mais que a Renda Fixa, o sistema entraria em colapso.

As pessoas fechariam suas empresas e todo mundo investiria na Renda Fixa que, por sua vez, não renderia nada, pois, sem produção, qualquer aumento nominal do dinheiro seria pura inflação.

Quem conhece um pouco do sistema de avaliação de empresas (Valuation) sabe que o investidor em Ações exige previamente, mesmo que isso não se concretize, uma perspectiva equivalente à Renda Fixa mais um prêmio pelo risco que correu.

Sendo assim, se nos últimos anos o Ibovespa tem se valorizado menos que a Renda Fixa, por outro lado permanece a expectativa de que o mercado volte a prosperar nos próximos períodos.

Se as premissas 1 e 2 forem verdadeiras, a Bolsa não é um jogo, basta adquirir “algo” (uma cesta diversificada de ações) e esse algo tenderia a se valorizar, por questão lógica, pelo menos acima da inflação.

 

Atenção: Em nosso segundo artigo da série, apresentamos um gráfico Selic x Ibovespa a partir de 1986 até o Plano Real e outro a partir de então. Posteriormente, encontramos na internet o seguinte gráfico, a partir dos anos 70, apontando que no longuíssimo prazo, o índice da Bolsa poderia acompanhar a Renda Fixa (se clicar na imagem, verá o gráfico em sua fonte). Esse gráfico abrange o período mais longo que já vimos (nós não encontramos dados anteriores a 1986):

ibovespa x cdb

3- Grafismo, alta frequência, custos: jogo

Pense em um grande jogador de Poker. Por que ele é vencedor? Com certeza não é por sua habilidade de ter sempre as melhores cartas em mãos, pois a estatística não permite isso. Ele é vencedor porque conhece o funcionamento da mente dos outros.

O grafista parte do pressuposto que todas as informações disponíveis sobre as empresas estão precificadas e que, portanto, analisar demonstrações financeiras é perder tempo. A única maneira de bater o mercado seria entender seu comportamento diante dos fatos (por meio do aprendizado de padrões de movimentações dos preços) e, aí sim, adiantar-se nas operações.

Na parte em que considera o mercado eficiente, o grafista não está completamente errado. Cerca de 80% das vezes o mercado é eficiente e leva em conta todas as informações (o objetivo do investidor fundamentalista é trabalhar os 20% das vezes em que o mercado descola da realidade, e isso ocorre a todo tempo, não só em crises).

Ocorre que, pressupondo a eficiência do mercado, você é jogado em um vazio de caminhos a serem seguidos e a única solução razoável seria realmente adquirir um ETF, já que diversas compras e vendas de ações (trades) lhe tendem a trazer somente o mesmo que o mercado (o índice) e com a desvantagem enorme dos custos das operações.

Para piorar a questão dos custos, a tendência hoje é de operadores que atuam cada vez mais em alta frequência, por meio de robôs, estabelecendo uma verdadeira máquina de gerar dinheiro para o governo (ISS), corretora e assessores de investimento (pela corretagem) e para a própria Bolsa.

Pensando mais uma vez que você está adquirindo uma empresa. Você já parou para imaginar quanta riqueza sua empresa produziu naqueles 30 minutos que às vezes dura um daytrade?

Empresa XYZ

Valor da Ação: R$ 100,00

Lucro por Ação (anual): R$ 10,00

Lucro da Ação por dia útil: R$ 10,00 / 252 = R$ 0,0396

Lucro gerado pela empresa, por Ação, em 30 minutos: R$ 0,0396/48 = R$ 0,000825

Que equivale a 0,000825% do seu valor investido (ou seja, do valor da Ação)

Em outras palavras, ao vender uma empresa 30 minutos após adquirir a Ação, você está vendendo exatamente a mesma empresa que comprou. Nem uma empresa melhor, nem uma empresa pior, praticamente nenhuma riqueza foi gerada e a sua noção de mercado é justamente a de que você é mais esperto que os demais players.

E o que é pior: provavelmente os outros players têm um aparato tecnológico mais potente que o seu, concentração total naquela operação e algumas outras pequenas (mas de grande efeito) vantagens competitivas.

Certa vez assisti a um renomado trader dizer que ganhava 52% das vezes e perdia 48% e que isso era suficiente para ele fazer dinheiro no mercado. Ele pode estar certo e você pode segui-lo, desde que comece com 5 milhões em carteira, para que esse 1 ou 2% de acertos marginais gerem um valor significativo para pagar os custos das operações e ainda remunerar o seu tempo para acompanhar o mercado de maneira treloucada.

Mas a questão que ainda resta é: esse trader era americano e lá é bastante fácil bater a renda fixa. Será que você atuando assim no mercado seria capaz de bater o nosso custo de oportunidade por aqui, a Selic? Você teria de ser um trader muito “fora da curva” para conseguir isso.

jogo

Warren Buffett, em sua jornada ao longo de décadas obtendo mais de 20% ao ano de rentabilidade (uma marca fenomenal) não pensa que é mais “esperto” que os outros: ele adquire boas empresas e as mantém por muitos anos, dando tempo para que esses negócios cresçam, gerem valor e mostrem ao mundo esse valor.

Outras estratégias fundamentalistas que conhecemos, com horizontes de 1 ou 2 anos de investimento (bem mais curtos que o de Buffett), também têm mostrado consistentemente retorno acima do mercado, seja em trabalhos acadêmicos, seja nos resultados de alguns gestores de fundos. Mas o que todas elas têm em comum é dar algum tempo para que “algo aconteça no mundo real”.

Talvez por isso haja uma lista longa de bilionários investindo como Buffett e os fundamentalistas e, por outro lado, eu não conheça um só nome de quem tenha chegado tão longe agindo “da outra maneira”.

4- Exemplos de Rentabilidade Análise Fundamentalista

Muita gente acha que o investimento fundamentalista também não passa de um falatório, pois não “pode ser algo tão fácil encontrar as ineficiências do mercado”, pelo menos para o pequeno investidor.

Quando resolvi seguir a trilha fundamentalista, eu também estava cético disso.

Mas então li dezenas de estudos acadêmicos e livros de autores renomados, e comecei a “pinçar” algumas características em comum daquelas estratégias que no fim, sempre geravam o tal do excess returns (retorno acima do índice de mercado).

Depois, disso, vi que determinadas estratégias sempre apresentavam ganho acima do mercado. Sobre algumas, especificamente, eu sequer encontrei um estudo que não apresentasse ganhos acima do mercado. E comecei a aplicar isso tudo em meus próprios investimentos.

Gostaria de compartilhar com você, leitor, um site de análise fundamentalista bastante interessante, o Old School Value. Um site em que o Jae realiza testes semanais das principais estratégias fundamentalistas na Bolsa americana e compartilha seus resultados.

A página principal de seus resultados você pode acessar aqui.

Infelizmente, a estratégia que mais tem nos chamado a atenção e sobre a qual encontramos imensa consistência de resultados acadêmicos não está na lista de testes do Jae. Mas a lista, em si, já é capaz de, ao mesmo tempo, proporcionar um aprendizado enorme sobre estratégias de seleção de ações e demonstrar que é possível obter uma rentabilidade maior que o mercado de maneira sistemática, embora uma ou outra estratégia seja simplificada em excesso, do meu ponto de vista.

Entenda os resultados do OSV:

OSV stock screener

  • SPY e Russell 2000: São ETF da Bolsa americana. São os índices a serem batidos. O SPY segue o índice S&P 500, das 500 maiores empresas americanas e o Russell 2000 é um índice de small caps.
  • Cada coluna é uma estratégia e Total Return é o retorno de 1999 até o ano presente.
  • 3YR CAGR é o retorno médio composto anualizado no período de 3 anos. Ou seja, quanto rendeu em média cada estratégia nesse período.

Bom, espero ter demonstrado que Bolsa de Valores não é um Casino e que pode ser rentável, dependendo de sua atitude perante ela. Espero também que você tenha lido os outros 2 artigos dessa série e que agora esteja vendo Ações com um olhar um pouco menos cético.

Se você quer saber como abrir uma conta em corretora e emitir ordens no home broker, leia também nossos artigos sobre investir na Bolsa de Valores e como comprar ações.

Em nosso artigo sobre como investir na Bolsa de Valores, na barra lateral direita, há um link para você se inscrever e receber uma série de vídeos sobre o investimento em ações, assim que estiverem prontos.

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Eduardinho é Auditor da Receita Federal e educador na área de Finanças Pessoais. Criador do método Carteira Rica de enriquecimento, o autor compartilha suas dicas neste blog e vai ajudar você a transformar o modo como lidar com seus investimentos.