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COE: Bancos, Corretoras e Apostadores

Recentemente as principais corretoras do Brasil investiram pesado na divulgação dos COE: Certificados de Operações Estruturadas. Foram vários anúncios na internet e publieditoriais (quando se paga a algum site ou jornal para escrever a respeito), com o objetivo de popularizar no Brasil essa forma de aposta, digo, de investimento.

O resultado? Perfeito, os COE estão cada vez mais populares.

O que são COE?

COE são certificados emitidos por bancos, mas que não contam com garantia do FGC (ou seja, se o banco emissor quebrar seu dinheiro vai junto)(todo adquirente de COE acompanha os relatórios de ratings das agências de classificação, não acompanha?) e que oferecem de forma compreensível ao leigo uma operação especulativa envolvendo derivativos. Em geral, contam com garantia total ou parcial do principal.

Quais os principais “atrativos” dos COE?

  • Você não precisa entender exatamente os derivativos que está comprando e vendendo, ao mesmo tempo, no mercado futuro (dólar, juros, índice da Bolsa), apenas sabe de maneira clara e sucinta o que ocorrerá com seu dinheiro se houver uma variação nos preços desses ativos. Basta interpretar o “desenho” da operação.
  • Há uma proteção (em geral de 100%) do principal, então “não haveria risco ruim”, só risco bom de obter uma valorização.

Todo mundo ganha?

Bom, como não há Madre Tereza de Calcutá no mercado, você deve imaginar que:

  1. As corretoras estão recebendo uma boa comissão dos bancos para venderem os COE;
  2. Os bancos são remunerados “por dentro” no modo como estruturam esses COE, além de realizarem uma operação de captação de recursos para suas finalidades;
  3. E, além disso, você vai ganhar uma nota ao aplicar seu dinheiro! (Será?)

Enfim, ou os bancos ficaram loucos, a partir de “ontem” começaram a assumir os riscos das operações e estão perdendo dinheiro em prol dos clientes, ou dinheiro começou a brotar em árvore.

Bom, sabendo que os bancos “tiram o corpo fora”, ou seja, não assumem riscos de operações assim, e sabendo que o dinheiro não se reproduz na natureza, devemos imaginar que há uma terceira opção. Você sabe, mas talvez não queira ver, de quem sairá esse dinheiro.

Propaganda incoerente?

Os problemas dos COE começam com a propaganda que se viu por aí:

 

“Com COE, o investidor mistura renda fixa e renda variável…”

Bom, de todos os COE que vi, a face da renda fixa nunca apareceu ao cliente de forma explícita no gráfico da operação (abaixo nós deixaremos isso claro).

Em outras palavras, ainda que a maior parte do capital (Capital – custo total da operação) seja aplicada em uma renda fixa para garantir a devolução do principal se o mercado for contra a aposta, em nenhum dos que vi (dólar, índice Bovespa, etc.) a rentabilidade final do apostador, acima do principal, está atrelada a alguma taxa de juros.

Enfim, a propaganda é seletiva. Você encapsula uma operação de RF mais derivativos. Depois, não fala muito nos detalhes dos derivativos e apenas na RF, justamente a qual não remunerará o apostador, se observada a operação do lado de fora (embora remunere de maneira interna, compensando um provável prejuízo na parte destinada à aposta).

Isso é psicologia aplicada: a expressão “renda fixa” traz mais sensação de segurança ao destinatário da mensagem.

 

“Desbancarize seu investimento… Só que não.”

As corretoras que mais anunciaram são aquelas que estão tentando marcar posição na mente dos clientes como “shoppings de investimentos“. Para estas, o objetivo vai além da comissão imediata deste ou daquele COE, o objetivo de longo prazo é marcar posição, ganhar mercado.

O mais engraçado é haver corretora dizendo para as pessoas “desbancarizarem” seus investimentos e passarem a investir por meio das delas, pois ofereceriam opções mais rentáveis.

No entanto, com exceção das corretagens e taxas para operar diretamente no mercado (negociando ações, títulos públicos, fundos imobiliários) o que vemos são essas corretoras a lá shopping oferecendo justamente os produtos emitidos por quem? Pelos bancos!

Não é um contra-senso? Devo “desbancarizar”, deixar de investir no banco diretamente e passar a investir nos produtos bancários por meio das corretoras? Não sei se minha miopia aumentou, mas o que eu vi nisso foi só a interposição de um intermediário comissionado. E como o dinheiro continua sem brotar em árvore…

 

As outras duas questões que precisam ser explicadas vem a seguir:

“No COE com proteção do capital, não há possibilidade de perda…”

“Pelo COE, o investidor…”

A primeira coisa que você deve entender é que os bancos não assumem os riscos de operações assim.

O banco, ao estruturar a operação, transfere imediatamente os riscos ao mercado. Como? Por meio de operações na BMF (Bolsa de Mercadorias e Futuros). Como se trata de uma operação com trava, ele realiza compras e vendas em sentidos opostos para abrir mão de parte da rentabilidade em troca de uma limitação também nas perdas.

Sabe aquela grande exportadora que vende em dólares, ou tem dívidas em dólares, mas não quer correr o risco cambial e se concentrar no que produz? Ela vai ao mercado fazer um swap DólarCDI para se livrar do risco.

Ou aquele investidor estrangeiro na renda fixa brasileira que não quer também correr riscos do câmbio e apenas levar para casa uma bela remuneração? Ele compra dólar futuro.

Há vários outros exemplos de gente querendo se livrar de riscos.

Então, esse pessoal todo está lá na BMF querendo se ver livre de riscos. Mas, para isso, eles precisam de uma contraparte, que pode ser:

  • Alguém que queira se livrar de um risco oposto: então alguém que deve em dólar pode comprar um dólar futuro, ao passo que alguém que tem receitas em dólar pode vender dólar futuro.
  • Alguém querendo especular, ou seja, alguém que quer tomar riscos desnecessários pois tem a esperança de um grande ganho.

No mercado de opções de ações, há muito tempo os apostadores fazem as chamadas travas de alta ou travas de baixa, em que se criam bandas de rentabilidade, conforme a variação futura de preços, em três níveis: o nível de preços em que a rentabilidade respeitará uma proporção, um teto de ganho e um teto de perdas.

Perdas? Mas o COE não tem o capital protegido?

Não é explícito, mas há uma boa chance de você ter uma perda invisível em sua operação.

Na verdade, ao adquirir por R$ 15.000,00 um COE de 1 ano, cujo custo de montagem da trava mais a remuneração do emissor seja de R$ 1.870,89, estando a Selic a 14,25%, o que você está fazendo é o seguinte:

  • Aplicando R$ 13.129,11 naquele banco, em uma renda fixa similar à Selic, o que vai garantir o retorno de, no mínimo, o principal daqui a 1 ano;
  • Distribuindo R$ 1.870,89 entre o banco, a corretora e o mercado, na fé de que o Dólar, ou o Ibovespa, ou o que for, estará em um nível maior daqui a 1 ano.

Quanto superior? Veja bem, frise-se isso, não basta estar maior, existe um nível mínimo para que você ganhe comparando com o custo de oportunidade. Veja essa oferta de COE que recebi por email:

  • Taxa de câmbio no final igual ou inferior à taxa atual: Recebo o capital.
    • Nesse caso, a perda é do custo de oportunidade, no mínimo, R$ 15.000,00 * 0,1425 de Selic = R$ 2.137,50. Trazidos a valor presente pela própria Selic: R$ 1.870,89.
  • Taxa de câmbio maior em até 18%: Recebo a variação do câmbio com 40% de acréscimo.
    • Nesse caso, para atingir a rentabilidade mínima do custo de oportunidade, de R$ 2.137,50 ao final do período, eu precisaria de uma variação do câmbio de, no mínimo: 14,25% / (1 + 40%) = 10,17%. Em outras palavras, se o câmbio subir menos que 10,17% eu terei perdido para a renda fixa no período (mas o banco e a corretora, não).
  • Taxa de câmbio maior do que 18% acima da atual: Recebo 24,59% de rentabilidade, versus uma opção segura de receber a Selic de 14,25%.

Engraçado que o prospecto não veio detalhado dessa maneira. Por que será?

Veja que há perda do custo de oportunidade, com relação a uma aplicação livre de riscos, em qualquer cenário em que o dólar caia ou mesmo que se valorize “apenas” até 10,17%, com relação ao seu nível inicial.

Já os R$ 1.870,89 é o quanto você está distribuindo (sem ver) ao banco, à corretora e ao mercado em troca da possibilidade de um ganho superior à Selic.

Esse possível ganho, em relação ao custo de oportunidade, começa em zero se o dólar subir “apenas” 10% e pode chegar a R$ 3.688,50 (24,59% de 15 mil) na melhor das hipóteses.

Muitos investidores correram para adquirir esse COE, já que a modalidade de investimento está na moda e na mídia. Mas se eu te perguntasse se você gostaria de aplicar os 13 mil em uma renda fixa e apostar quase 2 mil reais em uma alta do Dólar, sendo que esse dinheiro poderia virar pó daqui a 1 ano, você toparia?

Isso mesmo, esses 1,8 mil podem virar pó daqui a um ano, pois é isso que acontecerá se seu investimento bater na trava de perda. Nesse valor está a comissão da corretora, a remuneração do banco e valor que o mercado exigiu para assumir o risco contrário ao seu.

Engraçado que tem gente que “investe” em um COE assim que seu assessor lhe oferece, “para diversificar”, mas na hora de fazer um curso de educação financeira acha caro…

Simulação de destruição de valor

Suponhamos que você adquira um COE de alta do Dólar, mas muito precavido, para ganhar em caso de queda, resolva adquirir também um COE de baixa do Dólar (meu assessor de investimentos na corretora enviou um email com essas duas opções, mais os COE de alta e baixa da Bolsa).

Então você aplica 15 mil no COE de alta e 15 no de baixa. Total de 30 mil. Vejamos:

  • Se Dólar não varia nada em um ano, você recebe de volta 30 mil. Terá perdido R$ 4.275,00 em juros;
  • Se o Dólar sobe ou cai exatos 10,17%, você recebe 15 mil de um e 17,1 mil de outro. Terá queimado apenas R$ 2.175,00 de juros (que poderia ter ganho em aplicação à Selic);
  • Se o Dólar varia acima de 18%, o melhor cenário, você terá recebido 15 mil de um e 18,7 de outro e terá queimado apenas 586 reais.

Em outras palavras, como há custos com instituições financeiras (bancos e corretoras), não se trata sequer de um jogo soma zero (onde um ganha exatamente o que outro perde), mas um jogo de soma negativa.

Perdas absolutas?

No caso de taxa de câmbio final inferior à atual (nesse COE específico), você tem a perda absoluta em termos reais, representada pela inflação do período.

Probabilidades?

Bom, fazendo isso várias vezes, você tem cerca de 50% de chances de ter retorno zero (em termos nominais) e 50% de chances de ter algum retorno positivo (no máximo, cerca de 100% do que apostou: 3,6 mil / 1,8 mil). Porém, se levarmos em conta o custo de oportunidade, você tem algo muito próximo da certeza de que perderá no longo prazo (algum de nossos alunos experts em estatística poderia fazer uma análise probabilística considerando uma hipótese não direcional do mercado? Para acrescentarmos ao artigo).

especulação

Bancos e corretoras não têm perdas, já os apostadores…

Em primeiro lugar, investidor é uma coisa, especulador é outra. Benjamin Graham, em 1934, no Security Analysis definiu que:

Operação de investimento é aquela em que, após uma análise profunda, promete segurança do principal mais um retorno adequado. Operações que não atendem a esses requisitos são especulativas

Ao adquirir um COE porque crê que algum ativo vá se valorizar ou desvalorizar, não há qualquer expectativa racional de retorno adequado, apenas fé.

Na verdade, como não basta acertar a direção do ativo (no caso, direção de alta), mas também ser necessário que ele ultrapasse uma barreira mínima de 10,17% de valorização (no exemplo que demos), as chances são enormes de que, no longo prazo, você acumule uma rentabilidade menor do que o custo de oportunidade.

Especular, ou não, eis a questão

Bom, não digo que você nunca deva especular. Pode fazer em situações específicas. Mas o principal é que você:

  • Saiba exatamente o quanto está colocando sobre a mesa de apostas (com os COE nem sempre isso fica claro), e aposte somente um valor que seja irrelevante para você;
  • Não o faça sempre, muito menos só porque o “Casino” está aberto (ou seja, porque seu assessor de investimentos enviou para você um prospecto de COE). Faça somente quando uma oportunidade for imperdível (quando saberei que é imperdível? Simples: se tiver dúvidas, é porque não é).

Assim, no dia em que você quiser especular (porque fez uma análise macroeconômica muito detalhada), você mesmo tomará a atitude de procurar seu assessor para saber se há algum COE naquele momento disponível e com as características que você procura. Ou seja, o movimento tem que ser seu, só assim há garantia de que você não está adquirindo porque “lhe foi empurrado”.

Além disso, é importante que você calcule o quanto será seu gasto implícito.

Talvez, dependendo de quanto capital você tem, seja interessante montar a operação por conta própria. Mas aí já é outra história.

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Eduardinho é Auditor da Receita Federal e educador na área de Finanças Pessoais. Criador do método Carteira Rica de enriquecimento, o autor compartilha suas dicas neste blog e vai ajudar você a transformar o modo como lidar com seus investimentos.