como a economia funciona

Economia em 30 minutos (e as chuvas do Ceará)

Você é um turista estrangeiro e vai ao Ceará passar uma semana. Coincidência enorme – nós sabemos, mas você não – aquela semana foi inteira de chuvas. Você volta ao seu país e comenta com amigos para não perderem viagem indo a um lugar tão chuvoso.

É exatamente esse tipo de impressão equivocada, porque temporalmente limitada, que muitas pessoas têm da economia.

Investidores erram completamente o timing de um mercado, perdem dinheiro e nunca mais voltam a investir naquilo, pois, “com certeza”, não vale a pena.

Dois exemplos claros disso são:

  • Como as pessoas físicas fugiram da Bovespa nos últimos anos – agora estão voltando, talvez outras pessoas, não as mesmas – e:
  • Como os educadores financeiros sempre têm a resposta definitiva sobre se é “melhor comprar ou alugar um imóvel”.

É como aquele inseto, a Aleluia, que vive 24 horas, e o que ocorrer nesse período ela tomará como definição de o que é o mundo.

Ocorre que a economia, no médio e longo prazo, tem um modo de funcionar cíclico. Hoje chove, amanhã faz sol. Depois, chove novamente.

Se você sai com guarda-chuvas ao sol, está carregando um peso desnecessário (investimentos conservadores em época de bonança).

Se você sai de sunga na chuva, pega um resfriado (investimento agressivo em época de retração).

Ray Dalio e a explicação mais simples que conheço dos ciclos econômicos

Ray Dalio gere o hedge fund Bridgewater e é o 30º americano mais rico.

Há algum tempo, ele escreveu e narrou um vídeo explicando em 30 minutos “Como Funciona a Máquina Econômica”.

O vídeo “choca” de tanta simplicidade. Simplicidade no bom sentido, está entre os materiais mais didáticos existentes sobre o assunto.

É impressionante a quantidade de conceitos importantes e tidos como “difíceis de explicar” que ele consegue traduzir do economês em meia hora: transações, mercado, crédito, taxas de juros alavancagem e desalavancagem, por exemplo.

Dalio lembra que o ponto de vista compartilhado nessa apresentação o ajudaram a prever as principais crises econômicas e o têm auxiliado há mais de trinta anos.

Estou certo que sim. Entender os ciclos econômicos é, para mim, o segundo pilar da educação financeira, junto à compreensão dos juros compostos.

Se você entende inglês ou espanhol, pode baixar a versão escrita nesse site.

 

Se não entende, fizemos para você um resumo do resumo, para que possa acessar as valiosas informações que Dalio compartilha em seu material.

As principais forças econômicas

Em linhas gerais, Dalio explica que mesmo a economia parecendo algo complicado, é formada de simples transações que se repetem inúmeras vezes.

É muito mais fácil compreender a máquina econômica partindo de baixo, de cada parte individual, do que partindo do todo.

A transação sempre se tem duas partes, o comprador, que entrega dinheiro ou crédito e o vendedor, que entrega produtos, serviços ou ativos financeiros.

Para ele, se entendermos as transações, entenderemos toda a economia.

Numa perspectiva maior, ele diz que o mercado é o conjunto de compradores e vendedores para um mesmo produto, como por exemplo, o mercado do trigo, ou de carros, etc.

A economia é o conjunto de todas as transações em todos os mercados.

Transação → Mercado → Economia

O maior comprador e vendedor é o governo, formado por duas partes importantes: Governo Central (que coleta impostos e gasta dinheiro) e o Banco Central (que controla o montante de dinheiro e crédito na economia pela determinação da taxa de juros e emissão de dinheiro). O Banco Central é um ator importante, pois atua diretamente no fluxo de crédito, que por sua vez tem um papel-chave na economia, pois é o seu maior e mais volátil componente.

Dalio explica que o crédito pode ajudar credores e devedores a conseguirem o que querem. Quando um devedor recebe crédito, ele é capaz de aumentar seus gastos e comprar bens ou investir em algo que não poderia em outras situações. Já os credores (bancos, investidores) querem fazer mais dinheiro.

Os devedores prometem devolver a quantia emprestada mais as taxas de juros sobre elas, gerando mais dinheiro para os credores.

Quando as taxas de juros são altas, tomam-se menos empréstimos, porque eles se tornam caros. Mas quando as taxas de juros são baixas, os empréstimos aumentam.

O crédito se cria na confiança do credor em emprestar o dinheiro acreditando no pagamento da dívida pelo devedor. Ao mesmo tempo, que se cria o crédito, se cria também a dívida, pois o que é um ativo para o credor é um passivo para o devedor.

O crédito é importante porque aumenta a capacidade de gastos e o gasto de uma pessoa é a renda de outra.

Quando a renda aumenta, maiores são as chances de se conseguir mais crédito, porque há mais condições de pagamento.
Com o aumento de crédito, aumentam os gastos, que geram mais renda e assim sucessivamente, girando a economia e criando seus ciclos.

Os ciclos

Para Dalio, os ciclos econômicos são produtos da combinação das três grandes forças que agem na economia ao longo do tempo:

  1. Aumento da produtividade;
  2. O ciclo de dívidas em curto prazo;
  3. O ciclo de dívidas em longo prazo.

Representadas pelos seguintes gráficos:

forças econômicas

Ele explica que, com a estrutura, o tempo e os conhecimentos que adquirimos, elevamos os níveis de vida, que eleva o crescimento da produtividade.

Os que são criativos e determinados aumentam sua produtividade e seus níveis de vida mais rapidamente. Ele afirma que a produtividade conta mais em longo prazo, enquanto o crédito em curto prazo.

Por isso, a produtividade não é um propulsor dos “vai e vem” econômicos, mas a dívida (crédito) sim, porque ao adquiri-la, ela nos permite consumir mais do que produzimos e ao quitá-la, ela nos obriga a consumir menos do que produzimos.

Quando se toma crédito para comprar algo que não se tem condições no momento, gasta-se mais do que se ganha, como se fosse um empréstimo do próprio futuro, ele explica. Cria-se um tempo no futuro em que terá que se gastar menos para pagar o que se deve, ou seja, cria-se um ciclo.

Isso vale tanto para uma única pessoa, quanto para toda economia.

Ele determina dois ciclos para a dívida. O ciclo mais curto, que leva mais ou menos de cinco a oito anos e o ciclo mais longo, que leva mais ou menos de 75 a 100 anos.

A chave para entender a economia, segundo ele, está justamente em entender o crédito, já que é ele quem desencadeia uma série de acontecimentos futuros, mecânicos e previsíveis. Numa economia sem crédito a única forma de gastar mais é produzir mais, mas em uma economia com crédito se gasta mais, pedindo mais empréstimos. Ou seja, o gasto numa economia com crédito é muito maior.

Ele fala que o crédito não é necessariamente ruim. Ele só é ruim quando financia o consumo excessivo que não pode ser quitado. E ele é bom quando aloca recursos eficientemente e produz renda. Como exemplo, ele cita o crédito usado para a compra de uma nova TV, que não gera nenhum tipo de produtividade e, ao contrário, o crédito usado para a compra de um trator, que aumenta a produtividade do fazendeiro, gera recursos para a quitação da dívida e melhora seu nível de vida.

Esse tipo de noção todo mundo deveria ter. É totalmente diferente financiar um carro novo para passeio ou financiar um para sua empresa. Realizar um financiamento imobiliário para morar ou para investir. Em um caso ou em outro, os juros que se pagam são totalmente distintos.

O ciclo da dívida no curto prazo

O autor faz uma analogia interessante para mostrar o ciclo de dívida em curto prazo.

Ele dá o exemplo de alguém que ganha 100 mil anuais, não tem dívida, e toma emprestado 10 mil. Essa pessoa pode gastar então 110 mil, mesmo só ganhando 100. Como os gastos de um são a renda de outro, outra pessoa ganhará os mesmos 110 mil. E supondo que também não tenha dívida, ela resolve fazer um empréstimo de 11 mil e assim gasta 121 mil, mesmo só ganhando 110 mil. Assim sucessivamente, criando um processo cíclico (ou seja, que reforça a si mesmo).

Ele explica que o ciclo se reproduz, estimulado pelo crédito, mas, em algum momento, terá que reverter.

Primeira fase do ciclo em curto prazo:

Quando aumenta a atividade econômica, há uma expansão, o gasto cresce, os preços sobem. Na medida em que os gastos aumentam, os preços também aumentam.

Quando o consumo cresce mais que a produção de bens, causando o aumento de preços, temos a inflação, que é o reflexo do aumento da atividade à frente do aumento da produtividade.

O excesso de inflação por sua vez é um problema. Quando a inflação aumenta muito, o Banco Central aumenta as taxas de juros, que fazem com que o custo para empréstimo de dinheiro seja alto, desacelerando os gastos.

Segunda fase do ciclo em curto prazo


E já que os gastos de uma pessoa representa a renda de outra, essa redução nos gastos leva a menores lucros. As pessoas gastam menos, os preços baixam. Há deflação. A atividade econômica diminui e há recessão.Quando a inflação fica controlada e a recessão se torna muito severa, o Banco Central diminui as taxas de juros para aumentar a capacidade de empréstimo e estimular novamente a atividade econômica e uma nova expansão.Em resumo, nesse sentido, tudo se deve ao crédito.

Quando o crédito é obtido com facilidade há expansão econômica. Quando não se obtém facilmente, há uma recessão. Tudo isso controlado pelo Banco Central, num ciclo de cinco a oito anos, que se repete por décadas.

No Brasil, temos percebido ciclos mais curtos que isso.



débito

Ciclo da dívida no longo prazo

A partir do gráfico de oscilações da dívida em curto prazo, Dalio explica os ciclos de dívida em longo prazo. Ele diz que os altos e baixos de um ciclo nunca são os mesmos, o final de cada ciclo é sempre maior do que o ciclo anterior, ou seja, há sempre mais crescimento e há sempre mais dívida.

Ele justifica esse comportamento pela tendência das pessoas de tomarem mais crédito que sua capacidade de produção e quitação. Segundo ele, essa é a natureza humana. Efetivamente, em longo prazo, essa tendência leva a um maior crescimento das dívidas em relação aos rendimentos de fato, criando assim, o ciclo de dívida em longo prazo.

Mesmo que as pessoas estejam endividadas, elas conseguem crédito com facilidade porque todos consideram que as coisas vão bem.

É aqui que Dalio explica como ocorre a chamada “bolha”, que é quando tudo parece bem no momento. O crédito é dado com facilidade; as pessoas consomem mais, baseadas no crédito (e em sua capacidade futura de pagar as dívidas), a renda sobe, sobem o preços dos ativos, o mercado ruge e o crescimento é acelerado.

A relação entre dívida e renda ele chama de “carga de dívida”. Enquanto a renda sobe, a carga de dívida fica gerenciável. Mas o preço dos ativos sobe vertiginosamente e então as pessoas são obrigadas a tomar de empréstimo somas maiores para adquiri-los, antes que subam ainda mais. Elas se sentem ricas, porque conseguem crédito com facilidade, mesmo com muita dívida acumulada. Porém, é óbvio que a situação não se perpetua.

Por décadas, a carga da dívida aumenta até alcançar o ponto onde ela excede a habilidade dos rendimentos de a manterem. Chega a hora de pagá-la. As pessoas se veem obrigadas a cortar gastos, a renda começa a cair, o crédito diminui e o reembolso da dívida previamente tomada cresce (pagamento de dívidas). Há um encolhimento da economia. É a inversão do ciclo da dívida em largo prazo. O gráfico apresenta agora o ciclo de queda da economia.

Dalio exemplifica ressaltando o que aconteceu nos Estados Unidos e na Europa em 2008; no Japão, em 1989 e nos Estados Unidos, em 1929. A economia nesses períodos entra em uma fase que ele define como “desalavancagem”.

As pessoas reduzem gastos, a renda diminui, o crédito desaparece, os ativos caem, os bancos sofrem e as bolsas de valores desmoronam, aumentando as tensões sociais. Enquanto pagam suas dívidas, as pessoas ficam restritas para a obtenção de crédito e não podem tomar o dinheiro suficiente para pagar o que devem, sendo, então, obrigadas a vender ativos.

Como todos estão na mesma situação, a “febre de vendas inunda o mercado”, causando colapso da Bolsa. O mercado imobiliário se afunda, há a desvalorização dos ativos e as pessoas, restritas ao crédito, se sentem mais pobres. Tem-se, então, um ciclo vicioso de queda.

Segundo Dalio, a diferença desse cenário para uma recessão é que na recessão sempre se pode baixar as taxas de juros para salvar a situação, estimulando o crédito novamente, mas nesse caso, as taxas de juros já estão baixas, perto de zero, não há como criar o estímulo para a economia.

E como resolver então? De acordo com ele, a carga da dívida tem que baixar e há quatro formas para que isso ocorra:

  1. Pessoas, empresas e governos cortam gastos (o que ele chama de austeridade);
  2. As dívidas têm que ser reduzidas diante moratórias e renegociações;
  3. Há a necessidade de redistribuição de riqueza;
  4. O Banco Central imprime dinheiro novo.

Dalio afirma que as quatro formas ocorreram em cada desalavancagem da história moderna. Ele mostra como o corte de gastos leva a diminuição da renda e consequentemente ao não pagamento das dívidas, diminuindo os ativos dos bancos e fazendo com que as pessoas, com medo, passem a sacar seu dinheiro. As empresas, por sua vez, demitem, gerando desemprego. E essa contração econômica torna-se uma depressão.

Segundo o investidor, uma grande parte da depressão é a população descobrindo que o que eles pensavam que era sua riqueza (figurada pelo crédito), na verdade não é.

Durante a depressão, os governos gastam mais para estimular a economia, mas isso faz com que haja aumento de impostos. O déficit no orçamento explode.

Para conseguir dinheiro, os impostos dos ricos são geralmente aumentados a fim de redistribuir a riqueza para quem necessita (isso não ocorre de fato no Brasil, Dalio está falando dos EUA). O governo também cria planos de incentivo para atender aos mais pobres e ajudar a impulsionar novamente a economia.

Contudo, como a produção está em baixa e há mais gastos pelo governo para impulsionar a economia, mesmo com o aumento de impostos, há um déficit orçamentário, já que a renda do governo vem da carga tributária sobre a criação de riquezas.

O governo tem então que tomar dinheiro emprestado. E esse dinheiro vem dos ricos, ou, como ele explica, do aumento de impostos para essa classe.

Naturalmente, isso leva a uma tensão entre as classes econômicas. Os ricos ressentem-se pelos pobres e os pobres ressentem-se pelos ricos. Se a depressão durar um longo tempo, essa tensão pode se tornar explosiva e alterar até mesmo um governo, ou ultrapassar os limites internos de um país, causando mal estar entre países credores e devedores. Dalio dá o exemplo da forte depressão que levou Hitler ao poder na Alemanha, em 1930. Guerra na Europa e depressão nos Estados Unidos.

banco central
Para apaziguar a depressão, o Banco Central é obrigado e imprimir dinheiro. Com o dinheiro novo pode comprar ativos, ajudando a elevar seus preços, estimulando a inflação e consequentemente a economia. Os que têm ativos financeiros passam a ser novamente dignos de crédito.

Segundo ele, esse é um momento muito arriscado, no qual o governo precisa balancear as quatro políticas, inflacionárias e deflacionárias, a fim de criar o que ele chama “uma bela desalavancagem”.

A Bela Desalavancagem

Para Dalio, ainda que esse momento seja difícil, equilibrá-lo tem seu charme. E esse equilíbrio se consegue por meio do mix de corte de gastos, redução de dívidas, transferência de riquezas e impressão de dinheiro, que acaba por manter a estabilidade social.

Dalio comenta que a população muitas vezes se preocupa que a emissão de dinheiro causará inflação e certamente causará. Mas ela é boa, se compensar a queda do crédito. Ele exemplifica falando que um dólar de dinheiro vale tanto como um dólar de crédito. Com a emissão do dinheiro, o

Banco Central pode compensar o desaparecimento do crédito que se dá nesses momentos da economia.
O Banco Central precisa fazer com que a taxa de crescimento cresça acima da taxa de juros paga sobre a dívida existente. Ele exemplifica com uma balança, que de um lado tem as dívidas e do outro os rendimentos. Porém, sobre as dívidas incidem juros de 2%, enquanto os rendimentos crescem a 1%, desequilibrando a balança. Com a impressão de dinheiro, o Banco Central equilibra a balança novamente aumentando os rendimentos. Em essência os rendimentos (e o PIB) têm que crescer mais rápido que as dívidas.

Abordamos esse tema brevemente nesse vídeo, em que dissemos como as taxas de juros reais pagas por Índia e China são inferiores às suas taxas de crescimento, ao passo que no Brasil, os juros pagos são maiores que o crescimento.

Dalio explica que é fácil abusar da impressão de dinheiro, criando uma alta inflação. Mas ressalta que o segredo está no equilíbrio correto, que deixa a desalavancagem não tão dramática, permitindo um crescimento lento, mas com baixa nas cargas da dívida.

É o que ele chama de “bela desalavancagem”. Tudo isso leva ao início do ciclo da dívida de longo prazo.

Mas pode levar até uma década para que a economia se recupere de uma depressão e volte à normalidade. Daí a expressão “década perdida”.

Por fim, é claro que Ray Dalio reconhece que a economia tem uma complexidade que vai além do conteúdo da apresentação, mas garante que se considerarmos o conhecimento dos dois ciclos e os colocarmos sobrepostos acima da linha de crescimento da produtividade, obteremos um modelo razoável para entender onde estamos e para onde vamos.

E se você tiver extraído ao menos um conceito, algum aprendizado dessa apresentação, temos certeza que os 30 minutos dedicados já terão valido a pena.

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Eduardinho é Auditor da Receita Federal e educador na área de Finanças Pessoais. Criador do método Carteira Rica de enriquecimento, o autor compartilha suas dicas neste blog e vai ajudar você a transformar o modo como lidar com seus investimentos.