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7 lições de Moreira Salles: o Warren Buffett mineiro

Lembro até hoje daquele dia em novembro de 2008, no meio da crise financeira global, em que tive uma bela surpresa: o Unibanco, do qual eu possuía ações ordinárias, acabara de anunciar fusão com o Itaú.

Nada mal. De uma hora para outra as ações, que estavam no fundo do poço, mais que dobraram de preço e compensaram um pouco da queda de um monte de empresas mal compradas que eu tinha em carteira e que estavam “derretendo”.

Foi mais ou menos na época em que eu estava querendo deixar de ser um “investidor de esperança” para buscar alguma metodologia que fizesse sentido e que gerasse bons resultados.

O Unibanco era negócio do Walther Moreira Salles, um filho de comerciante de secos e molhados, nascido em Pouso Alegre/MG, que se mudou para Poços de Caldas onde, jovem, começou a negociar títulos dos cafeeiros.

Para quem não conhece, já que o brasileiro tem paixão mesmo é por elogiar gente de fora, o Walther Moreira Salles deixou um pouquinho só de dinheiro quando faleceu: a fortuna combinada de seus filhos os coloca na posição de família mais rica do Brasil, com patrimônio em 2014 de 27 bilhões… bilhões de dólares, claro.

Em outras palavras, se estivesse vivo, estaria disputando a posição de homem mais rico do Brasil, palmo a palmo, com Eike Batista (não podia perder essa piada). Falando sério, estaria disputando com Jorge Paulo Lemann.

É claro que Buffet é mais famoso, inclusive mais rico, pois sozinho tem uma fortuna de US$ 60 bilhões. Então até entendo porque os americanos só falem nele. Mas será que não há nada que nós brasileiros possamos tirar de lição de negócios de outros brasileiros?

É que a maioria dos nossos letrados e doutores simplesmente traduz o que vem de fora (por isso que se lê tanta estratégia de investimento non-sense por aí).

 

Ao menos dois Buffetts brasileiros

O empresário mais admirado do Brasil na atualidade é Jorge Paulo Lemann, da Ambev e 3G Capital.

Ele está vivo, é empresário atuante, pois constantemente adquire novas empresas, escreve sobre negócios (“Sonho Grande”, editora Sextante) e até opinou recentemente sobre a crise brasileira.

Com faro apurado para bons negócios, Lemann é amigo e sócio de Buffett na Kraft Foods/Heinz, na Burger King e vive de adquirir boas empresas e melhorá-las, com sua fama de dilacerador de custos e cultuador da meritocracia.

Se houver interesse dos leitores, podemos falar dele uma outra hora, mas como está em voga, o que não falta é material na internet.

 

O Buffett de Minas

Como bom mineiro, O Moreira Salles fez fortuna discretamente.

Amigo de Getúlio, de JK e ex-embaixador brasileiro em Washington, Moreira Salles mostrou que nem só de banco vive o banqueiro e resolveu comprar em 1965 um depósito (jazida) de um negócio chamado Nióbio, que não tinha sequer aplicação industrial.

Na verdade, primeiro ele teve que produzir o tal do Nióbio para depois insistir até que algumas empresas passassem a comprá-lo. Segundo uma entrevista do presidente da empresa dos Salles, eles gastaram 20 anos para convencer a China a adquirir o produto. Hoje, ela adquire um quarto da produção (os outros grandes compradores são Japão e EUA).

A CBMM, empresa da família Salles, produz 85% do Nióbio do mundo e detém a imensa maioria das reservas mundiais.

Esse elemento é um supercondutor, usado na fabricação de tudo que envolve alta tecnologia, como jatos e foguetes.

Sem o Nióbio, não seria possível aos cientistas descobrirem a chamada partícula de Deus. E certos componentes nucleares e mísseis norte-americanos não teriam como resistir ao calor que eles próprios geram sem usar o Nióbio.

Ou seja, hoje, se os Moreira Salles disserem que não venderão mais o produto, ou o Obama tem que vir com flores e uma caixa de chocolates e se ajoelhar, ou os EUA invadem o Brasil para tomar a mina. Já imaginou a importância estratégica e política disso?

Segundo informações da internet, 200 gramas de Nióbio, adicionados a 1 tonelada de aço, são capazes de aumentar a resistência desse em 30%. Fora a redução de peso: a adição do Nióbio ao aço de um veículo, é capaz de reduzir seu peso em até 100kg.

A empresa não tem ação em Bolsa. Segundo o presidente, “não precisamos de dinheiro”. Nem publicidade eles querem muito. Em 2013, não por dinheiro, mas por estratégia, a família vendeu 30% da empresa para chineses e japoneses. Detalhe: mesmo os novos sócios estão proibidos de fazer visitas no interior da empresa, por questão de segredo. Eles têm algo tipo a “fórmula da Coca-Cola” lá dentro.

Voltando no tempo, quando o discreto Walther Moreira Salles adquiriu a jazida em 1965, o elemento já havia sido descoberto, mas não existia produção, aplicação prática e, muito menos, clientes. Em outras palavras, isso que é adquirir um ativo “na baixa”.

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Lições que podemos tirar do Moreira Salles

1- Seja ativo em juros, nunca passivo

Moreira Salles era um banqueiro, lembre-se disso. O Brasil é o país dos maiores juros do mundo, então o negócio aqui é receber juros compostos, não os pagar.

Nas empresas, aqueles financistas que buscam elevar o ROE aumentando a alavancagem financeira são os primeiros a sumir quando uma crise bate à porta e a alavancagem se vira contra a firma.

2- Educação é o diferencial número um

De 5 irmãos, Walther foi o único com oportunidade de cursar faculdade (em paralelo ao trabalho). Segundo consta, nunca direcionou a vocação de seus quatro filhos, tendo somente um se tornado banqueiro, mas nenhum dos outros destruiu a riqueza construída pelo pai. Educação faz total diferença e é o primeiro Ativo que você deve ter em seu Patrimônio.

3- Tenha paciência com seus investimentos

Vivemos na era da impaciência. A pessoa faz um investimento dito “de longo prazo” hoje e no mês seguinte consulta o saldo para ver quanto já subiu. Se tiver decepcionado suas expectativas irreais, ela vai lá, resgata e ainda pragueja quem lhe falou sobre o assunto.

Após adquirir os depósitos de Nióbio, Walther teve que começar a extraí-lo. Depois, levou um bom tempo para desenvolverem uma técnica para processá-lo e separá-lo da terra. Parece que é muito mais difícil que o minério, que simplesmente se lava.

E quando conseguiu tudo isso, adivinha? Não havia compradores.

Para convencer os chineses a adotar o produto, foram 20 anos de insistência. Se fosse imediatista como as pessoas de hoje, teria vendido a jazida 5 anos depois com enorme prejuízo.

4- Ofereça um produto ou serviço de qualidade Premium e nunca faltarão clientes

Em uma das entrevistas do filho Pedro (atual presidente do Conselho de Administração do Itaú Unibanco), ele disse que o pai logo entendeu que banco era um serviço. Então, focou em qualidade superior.

Quanto ao Nióbio, o produto, em si, “é” a qualidade superior.

Não confunda o fútil caro com o útil caro. O fútil caro pode deixar de ser adquirido em uma grande crise (ou não, já que no Brasil o mercado fútil é um dos menos atingidos nas atuais circunstâncias). Já o útil caro, tem muito mais resistência.

5- Ofereça um produto ou serviço exclusivo

Você já deve ter ouvido falar de monopólios.

Monopólio é um terror para consumidores e de autoridades públicas. Concentra-se muito poder nas mãos de quem o detém: o poder de controlar a quantidade do produto em circulação, o poder de determinar o preço que quiser.

Ao contrário do que se pensa, monopólios (quando construídos naturalmente) não são ilegais.

Além disso, há empresas que, embora não sejam monopolistas, têm uma vantagem competitiva tão grande que lhes permite se portar no mercado como se fossem.

Esse é o caso da Coca-Cola, por exemplo. Existem outros refrigerantes, mas a Coca-Cola pode ditar o preço de mercado, pois sua marca e demanda são tão fortes que a substituição por produtos similares mais baratos é limitada.

Não estou aqui falando apenas de gigantes. Se você oferecer um serviço exclusivo em seu bairro (exclusivo é aquele que outro não consiga oferecer igual), você conquistará o mercado.

6- “Vicie” seu cliente

Algumas empresas tomam isso ao pé da letra. Já citamos aqui uma produtora de refrigerantes e um produtor de cervejas. Ambos, segundo dizem, viciam seus usuários e talvez aí esteja uma das causas para o grande sucesso de seus produtores.

Mas no caso do Nióbio é diferente.

Quando os chineses relutaram 20 anos para adotar o Nióbio na linha de produção, não foi por ignorância. Nos primeiros teste já haviam descoberto as propriedades mágicas daquele elemento.

Então, por que demoraram tanto? Por medo. Claro que é por medo.

Em primeiro lugar, se você introduz um componente desses em seus produtos (que reduz o peso, aumenta a resistência e flexibilidade, é super-condutor, etc.), seus clientes nunca mais o permitirão retirá-lo.

E se o seu fornecedor for o único no mundo, adotar esse produto é o mesmo que transferir toda a sua liberdade e poder de decisão a alguém. O que os chineses não são é bobos. Melhor nunca oferecer um produto do que oferecer e não poder mais deixar de fazê-lo.

Então, ofereça um produto ou serviço que uma vez usado, torne-se indispensável.
família Moreira Salles
Foto: revista GQ Brasil

7- O jogo da vida não é apenas o mercado financeiro

Enquanto alguns empresários só falam de negócios e alguns investidores passam o dia inteiro acompanhando notícias do mercado financeiro, outros como Moreira Salles optam pela família, cultura e por boas relações.

Não é à toa que Walther Moreira Salles foi embaixador. Eles costumava receber em sua casa gente como Mick Jagger, Henry Ford II, Christina Onassis e Nelson Rockefeller.

Se tornou amigo pessoal de Getúlio Vargas e ainda serviu JK, Jânio e Jango. Tornou-se tão bem relacionado que obviamente foi escolhido embaixador do Brasil em Washington.

Seus filhos, todos são discretos e bem-sucedidos e nenhum “queimou” a fortuna do pai.

A família mantém um Instituto, museus e patrocinam arte em todo o Brasil. Lembro-me da época da faculdade, em que eu assistia filmes de graça no Usina Unibanco Belas Artes em Belo Horizonte (os 10 ou 20 primeiros estudantes que chegassem assim que o cinema abrisse, às 14 horas, ganham ingressos grátis).

A lição que fica nesse caso é: se você escolhe muito bem seus investimentos e tem a paciência para esperar que deem frutos, não precisará comprometer o tempo que você pode se dedicar a si próprio e à família.

 

 

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Eduardinho é Auditor da Receita Federal e educador na área de Finanças Pessoais. Criador do método Carteira Rica de enriquecimento, o autor compartilha suas dicas neste blog e vai ajudar você a transformar o modo como lidar com seus investimentos.