empréstimo p2p

Achei empréstimo P2P rendendo 1,7% ao mês. Vale a pena?

É temporada de caça! Com Taxa Selic a 7%, todos saíram à busca de oportunidades mais atrativas de investimentos. E acabei esbarrando com algumas oportunidades de renda fixa pagando entre 1,5% e 1,7% ao mês.

Passado a fase do “Oh!”, é hora de analisar a fundo a oportunidade.

Antes disso, só farei a mesma ressalva de sempre: 7% na Selic só é possível porque a inflação está próxima de Zero. Os juros reais brasileiros, medidos pelo Tesouro IPCA, estão acima dos 5%, ou seja, ainda somos campeões de juros! Mas não adianta explicar isso para as pessoas, elas continuam achando que os juros estão baixos e não se contentam com a ideia de 7% de rendimento.

Fazer o quê? E tem gente que ainda diz que o homem é um ser racional…

 

Crowdfunding de investimentos

Como mencionei em nosso vídeo da virada do ano, 2018 é ano de procurar Crowdfunding de investimentos.

Até porque a regulamentação das plataformas que oferecem esse serviço ocorreu somente em julho de 2017, com a publicação da Instrução CVM 588.

“O crowdfunding de investimento é uma alternativa inovadora para o financiamento de empreendedores. A CVM considera que a segurança jurídica trazida pela nova norma pode alavancar a criação de novos negócios de sucesso no país, permitindo a captação de recursos de modo ágil, simplificado e com amplo alcance a investidores por meio do uso da internet”. Leonardo Pereira, Presidente da CVM.

Ocorre que na primeira vez que li a Instrução, até por ter lido rapidamente, fiquei com a impressão de que ela só trata do crowdfunding de investimentos societários, ou seja, quando você compra uma parte de uma startup (a receita da empresa alvo precisa ser inferior a 10 milhões por ano).

Porém, disseram-me que há regras na Instrução para todo tipo de crowdfunding, então fica a tarefa de ler a Instrução posteriormente com mais tempo para detectar esses pontos que passaram em branco na passada de olho que dei.

De qualquer forma, essa modalidade de investimentos está oficialmente liberada e devidamente regulamentada.

Agora é hora de buscar as oportunidades.

 

Fintechs

Não é de hoje estão alardeando que as Fintechs revolucionarão o mercado, principalmente de serviços financeiros.

Por que tanto dizem isso? Veja o seguinte:

fintech

Porque uma Fintech consegue prestar o serviço equivalente ao de um banco muitas vezes com uma despesa operacional de apenas uma ínfima fração daquela que o banco teria (bancos possuem estruturas gigantescas: alugueis de imóveis, milhares de empregados, etc.).

Assim, a Fintech pode, em tese, repassar parte desse ganho de eficiência àquele que cede os recursos. Com isso, ela pode gerar uma situação em que todos saem ganhando: a fintech, o tomador de empréstimo (taxas menores) e o credor (aplicações mais rentáveis).

Essa é a teoria. Por isso o campo é tão promissor.

 

Empréstimo é um mundo

Um dos modelos de negócio de crowdfunding mais “antigos” é o de plataformas de Peer-to-Peer Lending, ou seja, o empréstimo direto entre tomador e credor, sem a intermediação do banco.

Só que falar de “empréstimos” é falar de um mundo de atividades diferentes. Existem empréstimos:

  • Consignados para pessoas físicas, que possuem inadimplência quase zero, já que o dinheiro das parcelas é descontado antes de chegar nas mãos do devedor;
  • Imobiliários, com garantia sobre o imóvel objeto da operação;
  • Hot-money, aquele empréstimo mais arriscado, na mão da pessoa física;
  • Capital de giro, para pessoas jurídicas pequenas, médias ou grandes;
  • Vinculados à aquisição de ativo imobilizado, etc.

 

Oportunidade analisada

Para o artigo de hoje, analisamos a plataforma Biva, uma das mais conhecidas (a única que conheço) no mercado brasileiro de P2P lending.

Eu já havia visto o site no passado, pois esse tipo de startup nunca passa em branco, assim que são lançadas, um de nossos leitores sempre nos manda email perguntando o que achamos a respeito.

Como era

Mas na época da análise, ela oferecia o seguinte (se não me engano):

  • Microcrédito;
  • Em operações garantidas por um terceiro (banco);
  • Com rentabilidade na faixa de 120% a 130% do DI, ou seja, próximo daquilo que encontramos na renda fixa mais turbinada.

Resultado: na época, não me chamou a atenção, pois a proposta não tinha um atrativo grande.

Como ficou

Recentemente, voltei a analisar as oportunidades de crowdfunding e novamente fui dar uma olhada na empresa. Com muita surpresa, percebi que mudaram totalmente o modelo de negócios para:

  • Crédito de capital de giro de maior volume;
  • Para empresas de médio porte;
  • Com rentabilidade na faixa de 1,2 a 1,7% ao mês (1,5% em média);
  • Sem garantia;

Agora sim, o modelo é bem mais atrativo, pois oferece a oportunidade de haver aquele ganho esperado das fintechs, o da eliminação do banco como intermediário (no modelo anterior, a inovação potencialmente disruptiva estava “contida”).

 

O risco de crédito

A questão central, a partir desse ponto, é a análise do risco de crédito.

Tudo bem, agora tenho a oportunidade de ganhar como um banco. Mas também de perder como um.

Então é necessário trabalhar na ponta do lápis para saber a “perda limite” que faz com que o investimento deixe de ser interessante.

A única taxa de juros que conheço que dispensa cálculo da inadimplência para saber se há ganho é a taxa praticada por agiotas. É tabelada em 10% ao mês. Com essa taxa eu sei que, independentemente do nível de inadimplência, o credor acumula ganho no longo prazo.

Porém, a taxa de 1,5% ao mês é uma taxa boa, mas relativamente próxima à Selic/DI. Principalmente se considerarmos que, embora estas girem em torno de 7% hoje, o DI futuro de 2 anos está em 8,11%. Ou seja, um pouquinho mais.

 

Considerações sobre inadimplência

Uma questão importante é a tolerância a perda. Se você não tem, não faça investimentos de risco.

Às vezes o consumidor de produtos financeiros, vulgo “Zé”, entra em todo tipo de negócio/investimento sem ler tudo a respeito e sem considerar os riscos inerentes. Depois fica chorando quando perde dinheiro. Essa é a chamada perda educativa, embora eu não tenha nenhuma estatística comprovando que essas pessoas aprendam alguma coisa após essas situações (parece-me que a reincidência é enorme… a ver).

Em análise de uma demonstração financeira de grande banco, constatei inadimplência média com prazo inferior a 90 dias na faixa de 4 a 5%.

Essa é aquela inadimplência que ainda não foi enviada a cobrança para recuperação de crédito. Após esse prazo é realizada uma cobrança administrativa e, depois de um certo prazo, é realizada a cobrança judicial. É necessário cumprir todos os passos da Lei 9.430/96 para que o banco depois possa lançar aquilo como perda definitiva.

No caminho, um percentual do crédito acaba sendo recuperado. Então, não é só porque houve um atraso inicial que há motivo para desespero e arrancar os cabelos. Isso é importante porque a pessoa que pretende fazer empréstimo P2P deve entender como se comporta um credor:

  • Haverá perdas;
  • Algumas perdas serão recuperadas;
  • Outras não;

Só um parênteses, cobrança administrativa é aquela realizada por empresas especializadas em torrar a paciência das pessoas (peguei bem leve!). Uma Maria Aparecida tomou crédito no Santander e inventou um número de celular, por coincidência, o meu. A empresa de cobrança me ligou por uns 3 anos, de vez em quando ligava 3 vezes por semana (ou por dia), quando estavam mais “atacados”. E nem adiantava dizer que não existia Maria Aparecida naquele número.

Cheguei a anotar data e hora de ligações para processar o Santander por dano moral. Mas não quis apostar na roleta da justiça brasileira, porque poderia perder ainda mais tempo com aquilo tudo.

Voltando ao assunto: para investir nesse tipo de operação, é essencial aprender a mentalidade de um credor, do contrário você se frustrará e poderá até perder saúde, talvez até com investimentos rentáveis.

 

Simulações

Infelizmente, no site que citamos, o Biva, não encontramos estatísticas passadas de inadimplência, o que torna nossa simulação um verdadeiro chutômetro.

Decidi estimar uma perda entre 5 e 10% nos créditos concedidos. Estimei que a inadimplência ocorresse desde início, embora tenha ressalvado que quase sempre a inadimplência ocorre após o pagamento de algumas parcelas (considerando a boa-fé das empresas). Enfim, investindo-se em 10 projetos, considerei que um deles não pagaria integralmente ou dois não pagariam 50% das parcelas devidas.

Considerei ainda a taxa média de 1,5% ao mês e o prazo de 24 meses, o uso da Tabela Price e o imposto de renda regressivo. O IOF e taxas cobradas pela plataforma não importam ao cálculo, pois a taxa dada ao credor potencial já é a TIR.

Como resultado, encontramos:

  • Retorno nominal bruto: 19,56% ao ano.
  • Inadimplência zero: 15,65% ao ano (líquido).
  • Inadimplência 5%: 9,89% ao ano, líquidos.
  • Inadimplência 10%: 4,22% ao ano, líquidos.

 

Conclusão e sugestões para a plataforma

A conclusão pessoal (cada um que tire a sua) foi de que o modelo de negócio é promissor, mas ainda falta bastante coisa para ficar atrativo:

  • A plataforma divulgar estatísticas passadas de inadimplência;
  • O negócio ganhar escala, para diluir o risco (lançamento de dezenas de portfólios mensais, cada um contendo dezenas ou centenas de empresas).

Enfim, reanalisada a oportunidade, após alguns anos, vi que houve evolução, mas no momento, para mim, que só tomo decisão de investimento conscientemente, ainda não está atrativo o suficiente.

E você, o que acha? Já participou de operações assim?

Conte-me nos comentários, ou abra um tópico no Capitool, contando sua experiência.

Mais sobre os assuntos: ,

author-photo
Eduardinho é Auditor da Receita Federal e educador na área de Finanças Pessoais. Criador do método Carteira Rica de enriquecimento, o autor compartilha suas dicas neste blog e vai ajudar você a transformar o modo como lidar com seus investimentos.