produtividade brasileira

Essa Revista o chamou de preguiçoso. O que você acha?

economist produtividade
O brasileiro, pela The Economist

Uma grande praia, com 200 milhões de banhistas tirando uma sonequinha de 50 anos! É assim que a revista The Economist enxerga os brasileiros.

O artigo começa “bem”. Conta como é altamente eficiente uma lanchonete no Lollapaloza, uma ilha de produção rápida em um mar de preguiçosos. Talvez por seu dono ser americano, então essa lanchonete tenha escapado à sonolência endêmica por aqui.

Vou resumir para você o que a revista diz:

  • Empresas que contratam 20 pessoas para ver se pelo menos 10 aparecem para trabalhar.
  • Poucas culturas oferecem uma receita melhor para “curtir a vida”.
  • Filas, engarrafamentos, atrasos em todo tipo de obrigação.
  • Empresas ineficientes que não quebram porque são protegidas pelo governo.
  • Baixo investimento em infra-estrutura.
  • Elevado investimento em educação, que, apesar disso, é de má qualidade.

A medida de produtividade foi tirada pelo PIB brasileiro (em dólares), dividido pelo número de trabalhadores. Como resultado, o país teve pouco ganho de eficiência nos últimos 50 anos, principalmente se comparado com China, Índia, Chile, México e Coréia do Sul. Enfim, o PIB cresceu aproximadamente na mesma proporção que a população ativa.

A matéria do The Economist é de 2014 e baseada em dados levantados pelo The Conference Board.

De lá para cá, diversas mídias e estudiosos buscam entender o resultado da pesquisa. A Folha de São Paulo e a BBC foram algumas das interessadas no assunto.

O artigo da BBC é menos preconceituoso que o da The Economist e mais interessado nas reais causas desse fenômeno. Para isso, entrevistou vários estudiosos e empresários brasileiros (em vez de apenas entrevistar um americano dono de lanchonete no “Brazil”).

A BBC levantou pontos mais relevantes. Alguns comento abaixo.:

  • A cultura gerencial brasileira é similar à dos demais países, o motivo não é nossa “preguiça” estrutural (concordo).
  • Não dá para colocar a culpa somente no empregado, hoje em dia a produtividade está muito mais relacionada à tecnologia. Meu comentário: Concordo. Então, o baixíssimo nível de investimento pode ser fator mais determinante que o empenho dos profissionais. É necessário ter investimentos maiores. Uma redução nas taxas de juros facilitaria isso.
  • Quase unanimidade de que é necessário o fim da proteção/subsídios à indústria nacional. Meu comentário: Aparentemente boa ideia, mas no fundo não é bem assim. E a doença holandesa? Nosso país exporta muitas commodities, o que fortalece o câmbio. Nem o fim da cobertura cambial resolveu esse problema. Se simplesmente deixarmos a indústria “competir” de maneira livre, ocorrerá apenas um resultado possível: o fim da indústria no país. Extinguir a proteção A questão é mais complicada do que parece.
  • Burocracia e infraestrutura. Meu comentário: Todo mundo coloca a culpa na complexidade do nosso sistema tributário, o que realmente existe. Porém, além de ser exagerado atribuir a esse fator o pífio aumento da produtividade, todos se esquecem que as mil exceções tributárias são criadas pelos próprios empresários, já que cada dia tem um setor em Brasília fazendo lobby para criar uma exceção a determinado tributo para o seu setor.
  • Educação. Aqui há outra batalha, vamos discutir agora somente esse ponto.
Mais educação equivale a maior produtividade. Isso é regra em todo o mundo, menos no Brasil.

Por que o Brasil é exceção? O brasileiro é burro? A educação aqui é inútil?

Só na última década, a média de estudo dos trabalhadores subiu 2 anos, segundo o Caged, o que é muita coisa. Mas por que o brasileiro é o único povo que, ao estudar mais, não produz mais?

Questões levantadas pela BBC:

  • Analfabetos funcionais: 40% dos universitários brasileiros são analfabetos funcionais, ou seja, não basta ter mais tempo de estudo se a qualidade é ruim.
  • Brecha (gap) de habilidades: Falta de alinhamento entre o que as escolas ensinam e o mercado precisa. Há, também, um estigma quanto ao Ensino Técnico.

A esses fatores, a Folha de São Paulo acrescentou a questão do “Prêmio Salarial”, ou seja, aquilo que se ganha a mais por estudar mais.

  • Elevação do salário mínimo: Houve uma redução drástica daquilo que se ganharia a mais por estudar. Trabalhadores com mais qualificação viram sua diferença salarial para os menos escolarizados reduzir. Assim, há um desincentivo ao estudo. Meu comentário: O argumento da Folha é contraditório, se há um desincentivo a estudar, por que as pessoas estão estudando mais?
  • Evasão escolar, por falta de flexibilidade do currículo do ensino médio, os jovens estão se desligando das escolas. Meu comentário: argumento contraditório mais uma vez. Se a evasão escolar é alta, como o tempo nas escolas aumentou?
  • Aumento da demanda por serviços menos qualificados. Aqui, sim, a Folha, embora de maneira muito breve, toca uma questão central: será que o trabalho que o brasileiro desenvolve é passível de maior remuneração com o aumento da escolaridade?

Um professor, não ouvido pelas matérias, rebateu justamente a crítica da Folha sobre o ensino brasileiro.

Para ele, é muito fácil colocar a culpa na “qualidade do ensino”, no “currículo inflexível” e na “discrepância entre o ensinado e o aplicado (teoria e prática)”. Mas a questão seria muito mais uma demanda do mercado.

A economia brasileira é baseada em 3 pilares:

  • Exportações agrícolas: soja, boi, frango, açúcar, etc.
  • Exportação de commodities extrativas, como minério e celulose.
  • Construção civil.

Ocorre que essas três áreas não são intensivas em conhecimento como o setor industrial. É óbvio que há tecnologia e espaço para aprimoramentos (e pessoas qualificadas) nessas áreas. Porém, o “grosso” da mão-de-obra não precisa de qualificação e pouco mais produzirá se mais educação tiver (ex.: pedreiro, camponês, etc.).

Assim, quando os estudos comparam o Brasil a Coréia do Sul, China, Índia e até Chile, estaria nos comparando a países em que o setor industrial possui grande predominância e em que, por isso, o aumento nos estudos geraria maior produção.

Bom, temos que dar um crédito a esse professor, já que o que ele disse também reflete uma parcela da realidade.

Por outro lado, se atribuirmos a causa do problema a uma questão puramente estrutural econômica, seremos “obrigados” a conviver com o problema por toda a vida. Ou seja, se as “coisas são como são”, nada há que se fazer para melhorar.

Nesse ponto, a explicação do professor peca por não apontar, e nem abrir margem para que se pense, nenhum caminho para solucionarmos o problema.

Caminhos para o futuro

Como você pode ver, cada um aponta uma causa diferente e nenhuma das 4 visões que apresentamos mostra alguma solução para a questão.

Quanto mais o brasileiro posterga para lidar com questões difíceis como essa, mais ele deixa de ser o “país do futuro” para ser sempre o país do passado, o “país do nunca será”.

Há algum tempo a Liz comentou sobre economia colaborativa em um artigo lá no MTL (projeto que anda meio abandonado por conta das prioridades do dia-a-dia, mas o artigo é pertinente).

E eu acredito, assim como ela, que a solução do país passa por abraçar as mudanças que estão ocorrendo e pela criatividade.

E não estamos falando apenas da criatividade individual, minha ou sua, mas uma criatividade fomentada pelo poder público, para que todos sejam chamados a criar soluções para os novos problemas do país e do mundo.

E nessa hora, de resolver problemas práticos, a educação conta muito.

Porém, mais uma vez, nesse quesito de incentivo à criatividade e inovação (apesar de brilhantes, mas raras, exceções), o Brasil continua parado no tempo.

E você, o que acha? Somos preguiçosos, estamos trabalhando errado, aprendendo errado, ou nada disso, há algum outro motivo? Deixe seu comentário abaixo.

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Eduardinho é Auditor da Receita Federal e educador na área de Finanças Pessoais. Criador do método Carteira Rica de enriquecimento, o autor compartilha suas dicas neste blog e vai ajudar você a transformar o modo como lidar com seus investimentos.