rentabilidade tesouro direto

[Planilha] Rentabilidade Tesouro Direto e Renda Fixa

Sendo sincero com você, meu plano hoje era falar sobre dividendos na Bolsa de Valores. Porém, ao começar a escrever, percebi que muita gente não compreenderia a comparação entre dividendos e juros, essencial para o assunto, sem que antes eu explicasse detalhadamente como funciona a rentabilidade do Tesouro Direto e da Renda Fixa (a rentabilidade real e líquida, claro).

O artigo de hoje começa trivial, aprofunda e termina desmontando uma série de armadilhas mentais que podem comprometer sua rentabilidade.

Responda rápido: Transportados a meados de 2015. Você tem coragem de adquirir um Tesouro Selic? E uma LCI de Ipca + míseros 2%, está boa para você? Qual você prefere?

A análise dessa pergunta simples dará um nó em sua cabeça. Vamos começar a trabalhá-la?

Rentabilidade nominal e bruta é muito fácil de entender. No primeiro período, você multiplica o capital pela taxa de juros e Voilá! Para vários períodos, então é necessário usar a fórmula dos juros compostos (se você ainda não domina esse assunto, faça nosso curso grátis de Excel para investidores).

A rentabilidade real é aquela que abate a inflação do período, ela é a medida de aumento do capital levando-se em conta o poder de compra de uma moeda. Já a rentabilidade líquida, é a que se obtém após a incidência do Imposto de Renda.

Quem entende esses conceitos e tem mais experiência no mercado, acha que lida muito bem com tudo isso. Mas a verdade é que muitos se acostumaram a desprezar o efeito devastador do imposto de renda sobre a correção monetária, pois ainda estão com a “mentalidade Plano Real na cabeça” (ou seja, inflação próxima a zero).

Porém, em tempos de inflação alta (~10%), você tem que colocar tudo, absolutamente tudo, na ponta do lápis para não fazer escolhas equivocadas.

Quem não for rigoroso com o cálculo desses efeitos, poderá incorrer nas “pegadinhas” que eu mostro no final desse artigo.

Para que tudo fique bem claro, preparamos também uma planilha muito especial, que você precisa baixar hoje, e na qual você poderá fazer suas próprias simulações.

Os juros reais

O primeiro conceito que você tem de compreender é o de juros reais.

Uma taxa de juros nominal (exemplo: 14%) engloba não somente remuneração, mas a correção monetária da inflação esperada para o período enquanto durar o empréstimo (lembre-se que as aplicações de renda fixa e os títulos públicos nada mais são do que empréstimos a instituições financeiras e ao Tesouro Nacional, respectivamente).

Assim, uma taxa de 10% de juros pode representar ganho Zero, se a inflação futura se igualar a 10%. Nesse caso, mesmo recebendo os juros, o poder de compra do montante, após o período, seria exatamente igual ao do início.

Para calcular os juros reais, basta dividir o fator de acumulação (1 + juros nominais) pela variação no índice de inflação (1 + inflação acumulada). Assim, 14% de juros nominais com inflação de 10%, temos juros reais de (1,14)/(1,10)=1,036. Subtraindo-se 1, tem-se juros reais de 3,6%.

Rentabilidade do Tesouro Ipca e Debêntures: proteção extra

Para evitar a adivinhação da inflação futura, existem títulos do Tesouro Direto, como o Tesouro Ipca, cuja taxa é expressa em Ipca + Percentual de juros. Também é muito comum a emissão de debêntures com essa forma de remuneração.

Um detalhe é que, embora o sinal usado seja o de adição (+), como se está lidando com matemática financeira, a operação real é uma multiplicação (1+inflação)*(1+juros).

Rentabilidade Líquida do Imposto de Renda

Outro fator redutor da rentabilidade efetiva de nossos investimentos é o IR.

Na tabela do imposto de renda sobre aplicações financeiras, você pode perceber que inicialmente incide uma alíquota de 22,5%, que regride até 15% para investimentos de prazo superior a 2 anos.

O cálculo da rentabilidade líquida também é muito simples. Basta multiplicar os juros por (1-alíquota). No exemplo anterior, 14%*(1-15%) => 14%*0,85 = 11,9%.

Veja que, nesse caso, não se soma 1 aos juros antes da aplicação: (1+14%)*(1-15%) => (1,14)*(0,85) = 0,97. Afinal, a alíquota só incide sobre os juros (a rentabilidade), e não sobre o capital aplicado.

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Imposto de Renda sobre rentabilidade fictícia

Como você é uma pessoa atenta, reparou que no cálculo da rentabilidade líquida, o imposto de renda incidiu sobre todo o ganho, o ganho real (de 3,6%, como calculado acima) e o ganho imaginário (correção monetária de 10%).

Vamos dividir para analisar:

  1. Parte dos juros, o equivalente a 10%, apenas fará a recomposição inflacionária.
  2. A parte restante, de 3,6%, equivale a rentabilidade real.
  3. O Imposto de Renda incide tanto sobre os 3,6%, como sobre os 10%, pois incide sobre todo o ganho.

Aberração Brasileira? Não

O imposto de renda incidir sobre tudo não é peculiaridade brasileira. Porém, inflação alta é uma característica “cultural” (risos!) nossa.

Assim, em outros países a sistemática de cálculo é a mesma, a diferença é que lá estamos lidando com inflação de 1 ou 2% ao ano. Aqui, temos inflação que pode chegar a 10%.

Se pagarmos uma alíquota de 15% sobre 10% de inflação, teremos um imposto sobre ganho fictício de 1,5% ao ano a reduzir a taxa efetiva de rentabilidade do Tesouro Direto e da Renda Fixa.

É bom frisar que, apesar disso, nossos juros reais permanecem os maiores do mundo e em nenhum outro lugar do planeta é tão bom ser rentista como no Brasil. O que você deve aprender é a escolher bem seus investimentos.

Pegadinhas da Rentabilidade do Tesouro Direto e da Renda Fixa

Pegadinha 1: Comparar rentabilidades pela subtração da inflação.

O cálculo da rentabilidade real de títulos públicos e renda fixa é feito por multiplicação. Assim, mesmo que a diferença entre a taxa contratada e a inflação (ou seja, o juro real) pareça idêntica em alguns casos, ela não é:

Juros Inflação Juros “de padeiro” Juros Reais Juros reais e líquidos
14% 10% (14 – 10) = 4% 3,63% 1,72%
8% 4% (8 – 4) = 4% 3,84% 2,69%

A armadilha mental, nesse caso, é pensar que um investimento de 8% com uma inflação de 4%  rende tanto quanto um investimento de 14% com inflação de 10%. Para falar a verdade, como fomos treinados nos últimos anos a desconsiderar a inflação, chegamos a pensar que estamos levando imenso lucro com uma taxa de 14%!

Os juros reais demonstram o contrário, há uma leve vantagem do 8/4 sobre o 14/10. Porém, ao abatermos o imposto de renda (que, como dissemos, incide sobre a inflação), a conclusão é estarrecedora: o cenário 8/4 retorna efetivamente uma rentabilidade 56% superior ao cenário 14/10.

Como chegar à taxa de 1,72%? Simples: 0,85 * 14% = 11,9% (juros líquidos). Abatida a inflação de 10%, temos (1,119/1,10)-1 = 1,72%.

Enfim, quer ganhar dinheiro de verdade? Aprenda a fazer contas. O que eu mais vejo é gente “ensinando” a investir sem ensinar a fazer cálculos. Ora, estamos falando de coisa séria aqui. Estamos falando de uma diferença de 56% de rentabilidade em algo aparentemente idêntico, segundo nossas armadilhas mentais.

 

Pegadinha 2: Comparar erroneamente rentabilidades isentas com tributáveis.

Agora que já temos as contas para uma aplicação de 14% com inflação de 10%, que é o cenário do último ano (2015) para quem aplicou em algum título de 100% do DI, podemos responder ao dilema lá do início do artigo.

Na verdade, eu não conheço nenhuma pessoa que aceitaria uma LCI (eu pensei em debênture incentivada, mas escrevi LCI para não desviar a discussão para a questão do risco de crédito), que pagasse apenas 2% acima do IPCA/IBGE. Mas eu conheço um monte que aplica em investimentos de 100% (ou menos) do DI.

Para facilitar a comparação de taxas isentas com taxas de juros tributáveis, você pode usar essa ferramenta em nosso artigo sobre LCI.

 

Pegadinha 3: Esquecer do IR sobre inflação no Tesouro Ipca.

O Tesouro Ipca requer que você aplique o imposto de renda não apenas sobre a taxa de contratação, mas também sobre a taxa do Ipca, para você encontrar a rentabilidade efetiva desse título público.

Fizemos um teste de sensibilidade da rentabilidade líquida do Tesouro Ipca à inflação e o resultado é esse abaixo:

rentabilidade tesouro ipca

No caso de taxas de Ipca + Juros, use nossa planilha dinâmica do Google Spreadsheets com link ao final desse artigo.

Planilha de cálculo da Rentabilidade do Tesouro Direto e Renda Fixa

Ok. Teoria em qualquer lugar se encontra, mas você quer saber como agilizar sua vida.

Então, para automatizar seus cálculos, preparamos uma planilha online do Google Spreadsheets (para usá-la, você precisa de ter uma conta Google (se você baixa aplicativos no Google Play, já tem uma).

Essa planilha é dinâmica, ou seja, ela atualiza os dados de inflação, taxas de rentabilidade do Tesouro Direto e CDI a cada 5 minutos.

Atenção para quando o mercado de títulos estiver fechado, a taxa do Tesouro Ipca aparecerá como 0%.

Clique no botão abaixo para ser direcionado para a página de download e instruções de uso da planilha.

Planilha: Download e Instruções

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Eduardinho é Auditor da Receita Federal e educador na área de Finanças Pessoais. Criador do método Carteira Rica de enriquecimento, o autor compartilha suas dicas neste blog e vai ajudar você a transformar o modo como lidar com seus investimentos.